O que sua parede diz sobre você?

Vou fazer uma pergunta indiscreta: quem é você sem maquiagem? Com a parte de baixo do pijama escondida sob a mesa, camisetinha mal passada e cabelos presos para não pentear, sem salto, sem celular, sem aquele toque intelectual-chic do copo descartável do Starbucks, sem crachá, sem uniforme, sem pressa, sem gente em volta de você? O que aquela parede nua diante da câmera do seu computador conta de verdade? Continuar lendo “O que sua parede diz sobre você?”

Em cima do muro

Em cima do muro tinha uma mochila. E uma bolsa de praia, e quatro pares de chinelos. A praia era uma tripa de areia que se encolhia a cada respiro da maré, que subia e subia. Subia tanto que o acesso para não-condôminos estava bloqueado, cheio de pedras traiçoeiras debaixo de um metro e meio de água. Era uma praia dentro de um condomínio, dentro de um condomínio, mas era uma praia. E era pública.

Continuar lendo “Em cima do muro”

Normal

Um dia desses, estava pensando sobre normalidade. Sobre como passamos tanto tempo tentando ser normais, ou desejando ser pelo menos tão normais quanto os outros à nossa volta, que nos esquecemos de que o “normal” é só algo que muitas pessoas escolheram fazer do mesmo jeito, há tanto tempo que ninguém nem se lembra direito por quê. 

Continuar lendo “Normal”

Pra você que está chegando agora

Não ligue para o que eles dizem,

O mundo é melhor do que isso.

Pra você que traz na bagagem um bom esperneio e um sorriso sem dentes,

Chore, chore toda a sua indignação sincera,

Mas saiba que vamos fazer de tudo para que a sua risada seja mais alta.

E vamos rir juntos até você se cansar e dormir. Continuar lendo “Pra você que está chegando agora”

Cinco poemas para uma noite quente

1.

É que preciso de arte, você vê?

Preciso dela como preciso de comida (e você bem sabe o quanto preciso de comida…). Preciso de palavras, imagens, cores, de acordes dissonantes e temperos raros. Preciso daquilo que brota sem motivo, e que não serve para nada. Eu me alimento de nadas.

Cultivo em mim uma pequena plantação de inutilidades. Continuar lendo “Cinco poemas para uma noite quente”

Super-heróis

Mais um Rei Leão, mais um Blade, mais um(a) Thor, mais um Top Gun, mais um Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado. Mais super-heróis, mais super-vilões, mais histórias conhecidas com soluções confortáveis, vinganças catárticas e finais felizes. É difícil não se seduzir pela memória de tempos melhores, eu sei, especialmente quando os tempos são… Bem, estes. Continuar lendo “Super-heróis”

O tiozão mais feliz da balada

E de repente me vi: pés descalços, óculos de plástico verde-limão segurando os cabelos como tiara, tirinhas luminosas nos pulsos em múltiplas cores, boá de plumas cor-de-rosa enrolado no pescoço, saia arrastando no chão sem piedade, braços indo e vindo em movimentos tolos e ritmados. Um sorriso que virava risada, um passinho para cá e outro para lá, uma careta para a foto. Tinha me transformado no tiozão da balada. E o tiozão era o cara mais feliz da balada. Continuar lendo “O tiozão mais feliz da balada”

Menininha

Todo mundo tem uma história vergonhosa da infância. A minha (uma delas) é essa: quando tinha meus 4 ou 5 anos, eu costumava me agarrar ao corrimão na casa da minha avó e chorar descompensadamente, bradando aos sete ventos que eu queria ir à escola de saia, não de calça. Fazia uns 10 graus. Continuar lendo “Menininha”