FAHRENHEIT 451: DO LIVRO PARA O FILME

É sempre um desafio analisar adaptações literárias para o cinema. E esta não é qualquer adaptação: estamos falando de François Truffaut interpretando, em 1966, a obra de de Ray Bradbury, o homem apaixonado por ficção científica que escreveu mais de 50 livros e roteiros para a televisão e trabalhou até seus últimos dias (2012).

Julie Christie, and Oskar Werner in Fahrenheit 451, 1966.

Ambos contam a história de um mundo futuro, onde livros são proibidos e televisões (ou paredes eletrônicas, como eu imaginara antes do filme) fazem as vezes de família, projetando banalidades do dia-a-dia na mente vazia daqueles seres quase analfabetos – que consomem jornal em quadrinhos e notícias em rádios plugados diretamente aos ouvidos. É a sociedade da solidão, da tecnologia alienadora, do não-pensar, tudo de novo. É George Orwell, é Aldous Huxley, são décadas e décadas de livros e filmes derivados dessa ideia.

Uma ideia poderosa, é preciso dizer. Por mais semelhantes que sejam as obras daquele período (durante e após a Segunda Guerra Mundial), todas elas têm o mérito de nos impressionar e marcar de alguma forma. Apesar de “antigas”, elas ainda dialogam com a realidade do nosso tempo e com nossos receios diante dos avanços nem sempre positivos – basta ligar a televisão para encontrar a mesma estupidez retratada por Bradbury, apresentadores de telejornais e reality shows falando diretamente ao público como se fossem velhos conhecidos, forçando uma interação ilusória. E, por trás das câmeras, o contato realmente humano pende por um fio.

Montag (Oskar Werner) é um bombeiro que não apaga fogos – ele os provoca, incendiando livros clandestinos e, eventualmente, suas casas e até seus donos. “Fahrenheit 451” é a temperatura em que o papel é destruído pelo fogo e, nesse futuro, destruí-los é a única ocupação do corpo de bombeiros.

A atriz Julie Christie é Linda, esposa de Montag, e também a inquieta Clarisse, criada pelo tio e por toda a sua coleção de livros proibidos. Esta é uma das diferenças entre as versões: no original, Clarisse é adolescente e tem uma participação muito menor (mesmo que tão influente quanto). Além disso, o nome de Linda é Mildred (detalhe que me parece apenas um capricho de Truffaut). Outra mudança clara é o contexto histórico, já que o livro se passa durante uma guerra e o filme parece se passar num futuro asséptico desenhado por arquitetos modernistas. A guerra é, no máximo, sugerida num diálogo com uma das amigas de Linda.

O professor Faber, importante no livro, também desaparece, talvez por falta de espaço para a construção de mais um personagem em apenas duas horas. Nem vale citar a temida criatura que habita os porões do corpo de bombeiros na imaginação de Bradbury, totalmente ignorada pelo elegante Truffaut.

Se relevarmos as mudanças mais bruscas, porém, a adaptação é bastante fiel. Podemos reconhecer os mesmos diálogos, por vezes em personagens diferentes, e conseguimos sentir o clima opressor daquele Estado que se justifica pela “igualdade de todos” – o discurso é o de que os livros dariam a sensação de superioridade e ainda causariam tristeza. Como em “Admirável Mundo Novo”, de Huxley, a felicidade é obrigatória, mesmo que só possa ser encontrada em drogas. E, como em “1984”, de Orwell, é preciso ter sempre um inimigo comum para manter a nação obediente e unida (os livros, no caso).

O que Truffaut traz à obra é a força estética dos anos 60, quando as guerras saem de pauta e entra um sentimento de juventude, renascimento e liberdade em todos os campos da Arte. O design e a moda ganham espaço, a câmera torna-se mais ágil e expressiva. As cores de Truffaut são acinzentadas e perturbadas apenas por toques de amarelo e de um vermelho vivo, que reforça a imagem dos bombeiros (estranhamente parecidos com padres em seus uniformes).

O diretor, porém, parece preocupar-se mais em explorar o efeito visual da deterioração de cada página do que em denunciar a inexpressividade dessas pessoas iletradas – Mildred é oca e infeliz, enquanto Linda é satisfeita em sua ignorância. São essas pequenas diferenças que fazem do filme uma versão muito mais leve e comercial da obra, sem o pessimismo e a maldade pintados por Bradbury.

É claro que a história, por si só, faz valer a experiência, seja do filme ou do livro. É uma boa reflexão, para exercitar a cabeça de vez em quando.

fahrenheit-451-6

P.S.: Curiosidade: imagino perfeitamente o Christoph Waltz interpretando o chefe dos bombeiros, com aquele sorrisinho sarcástico e as teorias elaboradíssimas sobre livros e bombeiros do passado.

P.S.2: Há uma cena hilária em que policiais voadores perseguem Montag pela floresta. Além de o cenário estar totalmente fora de escala em relação a eles, podemos ver todos os fios de aço com nitidez. Por sorte, é a única cena do tipo.

 

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