COLEGAS: UM FILME, MUITOS TEMPOS

Você com certeza já ouviu falar deste filme, que estreia nos cinemas nacionais no próximo dia 1º de março: Colegas. Seja pela pesada campanha viral pedindo a vinda do ator Sean Penn, seja pelo trailer que começou a rodar pelas redes sociais e salas de espera de grandes redes de cinema, seja porque algum conhecido seu já assistiu a ele. Sim, porque Colegas não é, exatamente, um filme novo.

colegas

Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Paulínia de 2008, o projeto de Marcelo Galvão não chegou a ficar engavetado, mas custou a sair do papel: as gravações começaram em 2010, mas até meados de 2012 a distribuição ainda era incerta. Uma das opções foi o financiamento coletivo, modinha entre projetos independentes (e outros não tão indies assim), mas, após uma curta campanha no site Catarse, o projeto não viu o retorno tão sonhado. Conversa vai, conversa vem, com a chuva de prêmios conquistados em 2012 (incluindo festivais no Brasil, Itália, Rússia e Estados Unidos) a Europa Filmes acabou se encarregando da distribuição e, finalmente, o filme chega às telonas na semana que vem.

Para quem espera um drama pesado baseado na história do trio de aventureiros com síndrome de Down, pode esquecer: Colegas é uma comédia, e das mais levinhas. Pode levar as crianças e toda a família, que não há violência nem sexo explícitos, nem qualquer linguagem excessivamente imprópria. O que há é um forte sotaque paulista (carregado de “meu”s e “cara”s) e muitas, mas muitas referências ao cinema.

E é aí que está o maior charme do filme: os três protagonistas (Ariel Goldenberg como Stalone, Rita Pokk como Aninha e Breno Viola como Márcio) são cinéfilos incuráveis, pois passaram boa parte de suas vidas enclausuradas cuidando do acervo da cinemateca do Instituto (uma moradia exclusiva de portadores da síndrome, chamada apenas de “instituto”). Por decorrência disso, o vocabulário do trio é uma verdadeira enciclopédia de frases de filmes inesquecíveis, que vão desde Os Palhaços de Fellini até o recente Tropa de Elite de José Padilha.

O tempo, aliás, é uma questão não muito bem definida em Colegas. Enquanto carrões antigos ocupam as ruas de Paulínia rumo a Buenos Aires e telefones de disco aparecem em todos os cantos, vemos celulares nas mãos dos policiais (uma clássica dupla de “tiras”) e referências a filmes dos anos 90 e 2000. Seria essa uma forma de tornar a experiência ainda mais lúdica, nos jogando num mundo tão caricato quanto os telejornais sanguessugas, os civis vaidosos e os chefes de instituto afetuosos que nos pintam ali? O mundo de Colegas não é, mesmo, um mundo realista, mas algo aumentado nos detalhes mais egoístas de cada um de nós. Marcelo Galvão força no preconceito aos jovens, chamados de “retardados” mais de uma vez, mas dá espaço para que os três se mostrem completamente humanos, com defeitos e virtudes, inocências e malícias, sonhos e traumas.

O ponto baixo, me parece, é a cena do interrogatório com os outros moradores do Instituto: um desfile de personagens bizarros, com discursos sem pé nem cabeça. Se a intenção foi criar uma cena cômica, com os jovens zombando dos policiais, acho que o diretor passou um pouco do ponto e arriscou queimar a própria mensagem. Mas, considerando o quadro geral, o resultado é divertido e deve agradar a vários públicos. O tema é ousado (apesar de agora dividir espaço com outros tantos filmes abordando deficiências) e o foco é certamente inovador – bandidos, quem diria? Mas não é um filme que busca chocar ou tocar profundamente. É um filme para divertir, mostrando que também há graça onde, muitas vezes, julgamos que só exista tristeza.

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