UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA: O BRASIL É POP!

Como é boa a sensação de estar diante de algo que vai marcar época. Como dezenas de colegas na sessão de hoje de “Uma História de Amor e Fúria”, saí com a certeza de ter testemunhado uma daquelas obras que serão vistas e revistas por muitos cinéfilos e acadêmicos pelos próximos 20 anos, pelo menos. Não que “Amor e Fúria” seja um filme chato, difícil. Muito pelo contrário, e é isso que fará dele um clássico: este é um longa de animação moderno e sofisticado, feito com capricho de artista e esmero de pesquisador, que reconta a História do Brasil com uma pegada surpreendentemente pop.

amor e furia

A qualidade das imagens – desenhadas a oito quadros por segundo (técnica usada nos animes japoneses) – e do som (envolvente e muito bem dosado, com sussurros perfeitamente audíveis e gritos ensurdecedores quando necessário) deixa claro logo de início que aquele não é um filme qualquer. “Amor e Fúria”, como conta o diretor Luís Bolognesi (que foi roteirista em Bicho de Sete Cabeças), levou seis anos para ser produzido, entre a gravação das vozes e a finalização do projeto. “Seria muito mais rápido fazer um filme vetorizado, mas eu não queria esse visual. Queria o lápis no papel, com todas as possibilidades que ele permite”, explicou Bolognesi ao final da exibição. O resultado é um mix de graphic novel com pintura à mão, fotografias de época e um grande salto em 3D na cena final.

O longa é dividido em quatro partes, passadas em diferentes períodos da história nacional até chegar a um futuro distópico. O protagonista (também narrador, na voz inconfundível de Selton Mello) muda de nome a cada ato, mas permanece o mesmo, imortal na forma de um pássaro: ele é o escolhido de Munhã para lutar contra Anhangá, sempre que o temido demônio voltar ao comando. Anhangá é o português, é Duque de Caxias (aposta ousada), são os militares e é o grande empresário que explora a água para enriquecer.

“Amor e Fúria” reescreve a história do ponto de vista das revoluções, dando voz aos oprimidos sem cair no sensacionalismo ou no drama social puro e simples. Amarrado pelo amor entre o herói e Janaína (uma mulher diferente a cada episódio), o filme nos prende à cadeira, com olhos atentos e coração palpitante, mergulhando em conflitos que já conhecemos de cor, mas com uma abordagem infinitamente mais atraente.

“Meus heróis nunca viraram estátua”, brada o índio-negro-universitário-jornalista, numa frase que logo virará bordão. Bolognesi se revolta contra a visão eurocêntrica do ensino brasileiro e mostra a cara a tapa nesta animação-documentário, que já se prepara para representar o país em festivais internacionais.

O sucesso de “Amor e Fúria”, acredito, vai depender da distribuição, da divulgação e das críticas positivas, pois o conteúdo tem tudo para estourar, inclusive entre jovens estudantes que detestam as aulas de História. Separe, então, uma horinha do seu dia para assistir a esta produção, que estreia no dia 5 de abril, e livre-se de vez dos seus preconceitos com a animação nacional. Este vale a pena.

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