DENTRO DA CASA

Tem coisas que, mesmo depois de tantos anos de globalização, só o cinema francês consegue compreender e expressar com arte. Coisas como aqueles sentimentos reprimidos com os quais ainda não sabemos totalmente como lidar. Coisas como o vouyeurismo – esse desejo inexplicável de saber o que se passa na intimidade do outro e, mais até do que isso, de penetrar essa intimidade, de se fazer parte dela por um instante que seja. Não estamos falando de BBB ou reality shows que de reais não têm nada: em “Dentro da Casa”, filme que estreia nesta sexta-feira (29/03) nos cinemas, François Ozon vai fundo na invasão de privacidade e toca nossos medos mais primitivos.

Fabrice Luchini (o marido impagável de Catherine Deneuve em “Potiche: Esposa Troféu”, dirigido por Ozon) é Germain, um professor de francês que despreza os textos de seus alunos e não hesita em distribuir notas baixas ou expor os erros dos adolescentes em sala de aula. Tudo em nome da boa literatura, ou ao menos é o que diz. Ele é casado com Jeanne (Kristen Scott Thomas), dona de uma galeria de arte contemporânea, e ridiculariza esse conceito sem piedade – ideias não vendem, afinal. O que conta é a beleza da obra, é o efeito.

Germain encontrará essa beleza na narrativa de um aluno até então desconhecido por ele: Claude Garcia (Ernst Umhauer). 16 anos, bonito, tímido, extremamente habilidoso com as palavras e observador. Bastam dois episódios – cada um com pouco mais de uma página, entregues como lição de casa falsamente despretensiosa – para que Germain seja fisgado e decida ajudar o garoto a completar sua história, mergulhando ele também nas tentações vouyeurísticas do jovem escritor.

O conteúdo dos textos preocupa Jeanne: Claude narra suas visitas à família do colega Raphael, um menino de classe social mais alta cuja casa ele observara durante todo o ano anterior e por cuja mãe ele desenvolve uma paixão platônica. Umhauer lembra os meninos-fetiche do cinema francês (Antoine Doinel, Louis Garrel)  e arranca arrepios ao extrair diferentes camadas do seu personagem: um jovem sedutor à primeira vista, que aos poucos se revela frio e matemático, mas também inseguro e carente, depois cruel e vingativo. Nunca sabemos o que esperar de Claude (exceto na previsível sequência na casa de Jeanne, perto do final), nem se simpatizamos ou não com ele.

Talvez o que sentimos seja medo… Ou uma pontinha de vontade de olhar para os lados e ver se não há ninguém na porta, espiando entre as frestas. Ou, quem sabe lá no fundo, uma vontade ainda maior de abrir a janela e olhar de novo para aquelas cortinas entreabertas do apartamento ao lado, onde alguém se prepara para sair. Aonde estará indo? O que estará pensando? Quem será? Podemos inventar sua vida inteira, imaginá-la ou melhorá-la em palavras… Fazer literatura da vida cotidiana. Fazer cinema com palavras.

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