AKIRA (1988)

Quanto melhor o filme, mais difícil é falar sobre ele. Não acham?

“Akira” é um desses casos: produzido em 1988 com base no mangá de mesmo nome e dirigido pelo mesmo criador, Katsuhiro Otomo, o filme se tornou referência no mundo dos longas de animação e lançou o anime japonês ao público ocidental nove anos antes de o estúdio Ghibli entrar nos Estados Unidos com a parceria da Disney.

Não que a América já não flertasse com o gênero desde Astro Boy, de Osamu Tesuka, que chegou à televisão nos anos 60. Mas “Akira” foi diferente: além de trazer uma temática muito mais política e violenta do que o que havia sido exportado até então, o anime tinha uma qualidade gráfica assustadora até para os rígidos padrões americanos, e superava qualquer outra tentativa de retratar cidades futuristas no cinema.

Mas do que se trata?

A história se passa em 2019, cerca de 30 anos após uma Terceira Guerra Mundial, quando uma enorme explosão destruiu a cidade de Tóquio e obrigou a capital a se reconstruir, gerando uma NeoTóquio decadente e tomada por guerrilhas civis. Gangues de motos disputam as ruas, polícia e exército se recusam a trabalhar juntos, jovens apanham nas escolas e vagueiam como punks abandonados. Enquanto isso, estudantes protestam queimando carros contra uma reforma tributária e políticos enchem suas maletas de dinheiro, alheios aos problemas da cidade.

Tetsuo

Kaneda é o líder de uma dessas gangues e dono de uma moto vermelha que se tornou objeto de desejo de uma legião de fãs do filme, e também de seu melhor amigo, Tetsuo. Mais novo do grupo, Tetsuo nutre um rancor por nunca ter sido levado a sério e sempre ser obrigado a seguir ordens. Típico adolescente com um passado traumático, esse personagem concentra em si toda a energia dessa idade: é egocêntrico, inconstante, ora leal, ora vingativo e deseja acima de tudo ser respeitado como “adulto”.

Durante uma perseguição à gangue rival (os Palhaços), Tetsuo se envolve num acidente com um pequeno e misterioso garoto de aparência muito velha. Levado pelo exército junto com o menino, o adolescente é submetido a exames e, descobrimos depois, a experiências secretas envolvendo uma “energia pura” que, até então, só havia sido sintetizada por um ser humano trinta anos antes. Akira.

Colocando em contexto

A iminência de uma quarta guerra – causada pela tensão social e representada pela potência destruidora de Tetsuo – faz de “Akira” um filme altamente político. O conflito de interesses entre as diversas esferas de poder e entre o governo e o povo não é muito diferente do que vimos durante o século XX (e até hoje, por que não?). Além disso, Otomo parece fazer um paralelo entre a explosão dessa energia pura (com a qual o filme começa e termina) e a bomba de Hiroshima, que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e, ironicamente, o início do crescimento econômico do Japão que, na época do lançamento do filme, vivia seu apogeu.

Explosão no mangá

Fantasia

Como é comum em ficções japonesas, a fantasia e a realidade tendem a se mesclar. Aqui, o lado fantástico aparece em duas formas principais: nos poderes psíquicos de três crianças (capazes de criar ilusões e interferir na realidade fazendo, por exemplo, uma pessoa andar sobre águas e desaparecer) e no corpo mutante de Tetsuo que, tomado pela energia crescente, passa a “fagocitar” tudo ao seu redor, como uma ameba. Mas o “inexplicável”, no cinema japonês, não tem a função de provocar medo ou criar suspense, como seria num filme ocidental. Aqui, ele soa natural.

Remake?

Hollywood bem que tentou, mas o remake em live-action de “Akira” ainda não saiu do papel, com quatro tentativas frustradas desde 2002 (a última pela Warner, engavetada em 2012). O motivo são os custos astronômicos que uma adaptação justa exigiria, com todos os efeitos especiais necessários para recriar a NeoTóquio, as fantasias das crianças psíquicas e a transformação orgânica e monstruosa do personagem principal nos momentos finais.

Aviso

“Akira” tem pouco mais de duas horas de duração, com um nível surreal de violência e cenas panorâmicas avassaladoras. Tudo feito à mão, em aproximadamente 160 mil células de acetato. Para quem está acostumado aos animes, a quantidade de sangue não será tão marcante, mas para os filhos da bem-comportada Hollywood, não custa prevenir.

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