O SONHO DE WADJDA: ENCONTRANDO DELICADEZA EM TEMAS ESPINHOSOS

Wadjda é uma menina normal de 10 ou 11 anos: ela gosta de correr, ouvir música alta, usa um All Star de cano alto e cadarço roxo, joga vídeo-game, tem como melhor amigo um menino e sonha em ter uma bicicleta para apostar corrida com ele. O que poderia ser a história comum de qualquer pessoa de 30 anos no Brasil (a cidade parece ter parado no tempo nesse sentido: vemos fitas cassete e revistas subversivas onde hoje haveria pendrives e redes sociais) é a vida de uma garota-problema na capital do país onde as mulheres têm menos direitos conquistados no mundo.

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O Sonho de Wadjda, que estreia por aqui no dia 3 de maio, é um filme da Arábia Saudita, e ninguém sabe ao certo o que esperar disso. Mais ainda, este é o primeiro filme dirigido por uma mulher saudita e filmado no país e, pior, cujas personagens centrais são mulheres e sauditas.

Mas Haifaa Al Mansour é uma diretora de sorte, criada numa família liberal, que pôde estudar no Cairo e em Sydney antes de enfrentar as condições limitadíssimas para dirigir um longa-metragem no seu país – poucas mulheres aceitariam exibir o rosto num filme internacional… E menos ainda aceitariam contracenar com homens, em ambientes abertos. Isso sem contar a infraestrutura que um país sem salas de cinema obviamente não poderia oferecer (o filme será exibido na televisão local).

Por isso, antes de assistir, instintivamente coloquei os dois pés atrás e repeti para mim mesma: “este é um filme histórico, este é um filme histórico. Não crie expectativas”. Queimei a língua, como sempre, e saí com olhos lacrimejantes de um dos filmes mais “gracinha” que vi neste ano (e em muito tempo).

O encantador em Wadjda é que ela não se preocupa com nada do que, para nós, soam como obstáculos intransponíveis. Ela corre, tira o véu do rosto quando este a atrapalha, aprende a pedalar e até se inscreve para o concurso “decoreba” do Alcorão só para ganhar o prêmio em dinheiro e comprar uma bicicleta verde com fitinhas verde-amarelas. É claro que ninguém a compreende, exceto seu amigo e vizinho: a mãe não a reprime, mas tem a esperança de que ela pare com esses pensamentos rebeldes; a diretora da escola mantém um olho sempre atento e se arrepia toda ao ver a criança com a cabeça descoberta por aí. Wadjda simplesmente ignora e segue sendo criança.

Além da “grande questão” da bicicleta*, “O Sonho de Wadjda” também toca em temas muito mais cabeludos, como o casamento infantil (para mim, esta é de longe a cena mais chocante), a poligamia e a supremacia absoluta dos homens na família (segunda cena mais chocante: Wadjda vê a árvore genealógica do pai, a quem idolatra, sem o seu nome gravado).

Com tantas feridas para cutucar, é surpreendente como Haifaa consegue construir uma narrativa leve e doce, com gosto de infância e sem ressentimentos, sem que isso signifique uma concessão ao estado das coisas. Wadjda é, nitidamente, um filme subversivo, e tudo em sua produção aponta para isso: a diretora, a atriz-mirim (Waad Mohammed), os temas e as soluções propostas. Se a Arábia Saudita já vem afrouxando os nós sobre os direitos das mulheres há algum tempo, o que Haifaa nos diz é que elas querem mais. E que a mudança só depende, mesmo, delas.

 

* As mulheres sauditas ganharam o direito de pedalar em lugares pré-determinados no mesmo mês em que o filme foi lançado no festival Tribeca, nos Estados Unidos este ano.

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