ADEUS, MINHA RAINHA

Dentre todos os filmes franceses em cartaz no Festival Varilux (um apanhado de 15 longas atuais, exibidos até o dia 9 em São Paulo e 16 em outras cidades), “Adeus, Minha Rainha” talvez fosse um dos menos atraentes à primeira vista. Queria ver “O Menino da Floresta”, “Anos Incríveis”, “Camille Claudel 1915”… Não mais um romance de época inspirado na figura supersaturada de Maria Antonieta, a rainha austríaca que se casou com Luís XVI e assumiu o trono da França no século XVIII, até ser decapitada durante a Revolução Francesa.

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Mas a oportunidade surgiu e lá fui eu conhecer a intimidade da corte de Versalhes pelo olhar da jovem e ingênua Sidonie Laborde (Léa Seydoux). Ingênua talvez não seja a palavra, mas cega por um misto de amor platônico e desejo por ascensão social: ela cobiça o coração da rainha, de quem já ganhou confiança suficiente para ouvir confidências e frequentar seu quarto – Sidonie é a leitora oficial de Antonieta (Diane Kruger, sedutora e gélida ao mesmo tempo).A literatura poderia ter sido melhor aproveitada no filme, mas vamos deixar essa passar.

No início, acompanhamos o trabalho da garota: escolher os romances mais adequados ao humor da rainha, ler revistas de moda e até bordar uma Dália para seu próximo vestido. Sidonie tropeça duas vezes no caminho para encontrá-la e não é ajudada por ninguém. Já sabemos o que isso indica, não é mesmo? Ainda assim, insistimos em torcer por Sidonie.

Enquanto correm as fofocas do castelo (seria a duquesa Gabrielle amante da rainha? Teria ela manipulado Antonieta para conquistar privilégios?), explode em Paris uma revolta popular, com a tomada da Bastilha e a divulgação de uma extensa lista de cabeças a cortar – da qual ninguém está livre. A tensão está, literalmente, nos corredores insones do palácio.

Alguns personagens sobram na trama, como o garoto da barca ou a amiga que pega emprestado o pomposo relógio de ouro de Sidonie – tudo leva a crer que o objeto seria essencial para alguma reviravolta, mas… Não. Também é frustrado nosso desejo macabro de ver algum sinal da guilhotina, destino certo de tantos daqueles rostos assustados. Mas Benoît Jacquot, o diretor (que veio ao Brasil divulgar a obra), prefere explorar o suspense e revelar pouco. Por isso, talvez, tenha escolhido uma personagem tão pouco privilegiada para nos guiar pela história: apesar de ter seus contatos e espiar por certas portas, a criada tem mais dúvidas do que respostas, e nós também.

A futilidade da rainha não impede o público de se sentir tocado pelo seu drama pessoal: ela é casada com o rei e mãe de seus filhos, mas a relação entre os dois não passa de um acordo. Sua verdadeira paixão, uma mulher, parece estar se aproveitando de sua posição e não, realmente, correspondendo aos seus sentimentos… Mas Maria Antonieta não é qualquer mulher inocente… E deveríamos nos lembrar disso antes de torcer por ela.

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