Malévola, Magneto, Elsa: novos rumos na cultura dos vilões

Chegou aos cinemas nesta semana o tão esperado filme “Malévola”, prometendo contar a história da (talvez) maior vilã dos contos de fadas já adaptados pela Walt Disney. Uma história de amor, traição, vingança e… Redenção.

Nada de risadas malignas ou ódio em forma de dragão. O que sai de Malévola é um grito de dor, física e emocional, que mistura a raiva à tristeza a à decepção. Malévola passa a maior parte de seu filme fingindo ser má, como uma criança birrenta, mas suas ações a denunciam e sabemos que sua índole, na verdade, é boa, apesar dos modos às vezes brutos.

O mesmo acontece com outro super-vilão dos quadrinhos e dos cinemas, Magneto. No novo filme da franquia, “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”, sir Ian McKellen posa em paz e confiança (sem seu capacete metálico) ao lado do arqui-inimigo Charles Xavier – e ainda protege os X-Men em lutas sucessivas contra os Sentinelas.

Podemos argumentar que os dois se uniram em prol de uma causa comum: a sobrevivência dos mutantes, mas esse é apenas o começo. Nas cenas do passado, vemos Eric (Magneto) tomar atitudes muito mais responsáveis que as do ainda-não-professor Xavier. A inversão de papéis é temporária, mas traz uma mensagem clara: não há mais bonzinhos e vilões nem mesmo no mundo dos super-heróis.

A tendência vem de longe: em “Meu Malvado Favorito” (2010), a graça era ver um criminoso de bom coração cuidando de três criancinhas. A ideia se repetiu no simpático “Detona Ralph” (2012), com mais profundidade.

Seguindo outra linha, em “Valente” (2012), o papel do vilão foi eliminado por completo, abrindo espaço para histórias mais complexas em que o próprio herói (ou heroína) tem que lidar com as consequências de seus atos, sem culpar bruxas más. O filme parece ter servido de ensaio para “Frozen” (2013), que mesclou as duas tendências e desenvolveu a ideia do amor familiar, introduzindo uma memorável vilã-heroína.

Bem-intencionados, os criadores de filmes infantis e de super-heróis vêm mergulhando numa tendência cada vez mais forte de fazer de seus vilões personagens incompreendidos, tão humanos quanto os “mocinhos” (mesmo que não sejam humanos) e tão ou mais bem intencionados que eles.

A justificativa mais clara para essa mudança é a adequação a um novo público. Quanto mais maniqueísta, mais o filme se afasta do espectador contemporâneo, ensinado a (tentar) respeitar as diferenças e a (se esforçar para) enxergar os dois lados de toda situação. Não que ele faça isso, de fato: ao final de toda sessão, sempre haverá alguém para questionar se “o verdadeiro vilão” era fulano e se, portanto, o “herói” era ciclano. Essa pessoa tentará adivinhar “quem matou quem” e reestabelecer a ordem das coisas.

É bastante ousado, portanto, que grandes estúdios estejam propondo visões mais horizontais de mundo e, com elas, personagens mais realistas. Há algo de educativo nisso e, talvez, esses novos formatos estimulem reflexões até então adormecidas.

O problema é que, ao redimir os vilões, enfraquecem-se os heróis e criam-se novos antagonistas, infinitamente mais fracos e menos cativantes (pense naquele personagem que muda de lado em “Frozen” e no patético El Macho em “Meu Malvado Favorito 2”).

Para compensar um protagonista nem-tão interessante e um vilão (Malekith) frouxo, “Thor: O Mundo Sombrio” encontra uma solução inteligente: Loki. O deus, interpretado brilhantemente por Tom Hiddleston, encabeça uma geração de vilões carismáticos, que mantiveram as más intenções, mas se revelaram criaturas ambíguas e sedutoras.

Foi assim recentemente com Khan (Benedict Cumberbatch) em “Star Trek: Além da Escuridão” e com Harry Osborn (Dane DeHaan) em “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro”. Foi assim, é claro, com os dois Coringas (Jack Nicholson e Heath Ledger).

Bons ou maus, planos ou ambíguos, o fato é que a ficção precisa de vilões. É necessário que se experimente e explore mundos fantásticos feitos de pessoas comuns, nem certas nem erradas, mas não façamos disso uma nova regra. E não subestimemos alguns de nossos melhores personagens, atando-os em papéis que não lhes pertencem. Malévola que o diga.

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