2001 – Uma Odisseia no Espaço

Desde pequena, já ouvia falar em 2001: Uma Odisseia no Espaço. Para mim, o filme foi por muitos anos um enorme ponto de interrogação, dividido entre a cena indecifrável de um macaco jogando um osso para o céu ao som de uma sinfonia (“Assim Falou Zarathustra”, de Richard Strauss) e um astronauta atravessando uma estranha sala circular (ou seria octagonal?).

2001-c

Qual não foi minha surpresa quando resolvi ler, de fato, a sinopse, e descobri que havia um computador que se voltava contra a tripulação em pleno espaço. A decisão definitiva de assistir ao clássico veio pouco depois, quando um amigo comentou que aquele era um dos vilões mais terríveis da história do cinema. Hal 9000.

À época da abertura da exposição Stanley Kubrick em São Paulo, ganhei o fatídico DVD de outro amigo e finalmente (tomei vergonha na cara e) encarei o clássico de duas horas e meia. O tempo pode não ser tão longo quanto a fama sugere, mas o ritmo não se parece com nada do que encontramos nos cinemas hoje. A dica para manter o foco, descobrimos, é discutir os mistérios do filme em seus minutos de silêncio.

“O que significaram aqueles macacos?”, por exemplo, ocupou todos os 7 minutos do intervalo em tela preta. Já o bebê planetário nos deixou sem explicações, por mais que tentássemos. Mesmo assim, admiramos a ousadia da narrativa cheia de elipses e babamos nos enquadramentos sem gravidade, dentro ou fora da nave. “Gravidade”, aliás, já estava todo ali! E a Estrela da Morte, gente… Nunca vou me conformar. (Sabe a base militar de Darth Vader? Então… Dê apenas uma olhada na Discovery.)

Curiosidades à parte, o filme se divide em três momentos. Primeiro, a pré-história, quando um inexplicável monolito aparece para perturbar a paz dos macacos e estimular a competição (talvez motivando a primeira grande evolução, quando o animal aprende a usar o osso como instrumento de guerra).

Num segundo período, vemos uma viagem espacial secreta já num futuro bastante moderno para analisar outro monolito (seria o mesmo?), cujos resultados poderiam confirmar a existência de vida extra-terrestre. A missão reserva poucas respostas para eles e para nós.

O terceiro ato é o que concentra a ação. Uma equipe formada por dois astronautas ativos e outros tantos em hibernação parte numa viagem a Júpiter (saturno, no livro), numa nave controlada por um computador de última geração – ele mesmo, o Hal. Esse computador é capaz de conversar e raciocinar, é “infalível” e pode tomar decisões independentes caso seja necessário durante a jornada. É a receita para o desastre.

O que acontece depois disso é o que torna 2001 tão enigmático, mas é também o que me fez querer sair correndo para ler o livro. Sim, há um livro, mas o filme não é uma adaptação: os dois foram desenvolvidos ao mesmo tempo, pelo mesmo roteirista, e só se afastaram na fase final quando cada um dos artistas (Kubrick e Arthur C. Clarke) foi se dedicar exclusivamente ao seu produto.

Ao ter contato com os comentários e com a narrativa de Clarke, minha visão de 2001 mudou de turva para cristalina e cheia de cores. Clarke não deixa nada no ar, não sugere – ele cria uma verdadeira tese sobre o monolito e a viagem de David.

Se a mensagem do livro e do filme é a mesma, é difícil dizer. Kubrick parece preferir o terror de Hal e as curiosidades da vida no espaço, colocando a questão da tecnologia acima da existencial e inserindo o monolito como um mistério a ser decifrado pelo espectador – talvez livre para criar sua própria tese. Já nos escritos de Clarke, sentimos martelar uma pergunta que guiará toda a jornada, da aldeia de macacos até a inexplicável suíte de hotel que David encontra em seu destino: “e se a consciência pudesse se desprender do corpo físico para viver eternamente num invólucro artificial, ou em lugar nenhum?”

Completando e traduzindo, segundo Clarke [SPOILER]: e se uma raça muito mais evoluída e antiga (criadora dos monolitos e anfitriã de Dave na sequência final) já tivesse feito isso e agora partisse para criar outras existências semelhantes (incentivando o macaco a evoluir e ajudando Dave a se libertar do corpo, ganhando a percepção total do universo como um enorme sistema operacional)? O que é humanidade, o que é evolução, o que é divindade? – Quem viu recentemente o trailer de Transcendence com certeza já captou a semelhança…

Nada se cria.

photoMeu livro (ed. Aleph) é um monolito dentro
de uma capa estampada com o Hal!

Nota:

O perfeccionismo dos criadores (cada um com suas obsessões) era tão intenso que já encontramos uma descrição do que seria um Ipad, em plena década de 60:

“…conectou seu newspad do tamanho de uma folha de almaço ao circuito de informações da nave e verificou as últimas notícias da Terra. Um a um, podia conjurar os maiores jornais eletrônicos da Terra (…). Alternando para a memória de curto prazo do monitor da unidade, ele mantinha a primeira página enquanto vasculhava rapidamente as manchetes e anotava os itens que lhe interessavam. Cada qual tinha sua própria referência de dois dígitos; quando ele digitava, o retângulo do tamanho de um selo expandia até preencher toda a tela, e ele podia ler confortavelmente. Ao acabar, voltava num instante à página completa e selecionava um novo assunto para análise detalhada.”

Mais impressionante ainda é a pensar que a representação do planeta terrestre visto do espaço foi baseada apenas em hipóteses: quando o filme foi finalizado, o homem ainda não tinha pisado na lua e, portanto, ainda não sabia quais eram as cores e desenhos do globo.

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