Nostalgia Crônica

Se você ainda não reparou, aviso que o mundo vive uma nostalgia crônica. Uma doença daquelas insistentes, que fazem com que tudo o que se faz hoje pareça decepcionantemente pior do que o que se fazia antigamente – ou pior, que as pessoas desejem as coisas exatamente iguais ao que eram antigamente.

Nem adianta reclamar, “Que mundo injusto!” – pois sei que você também sofre desse mal. Ontem, fui assistir à nova animação da Disney, “Frozen” (programa obrigatório para janeiro, pessoal). Depois de rir e torcer e ver meus colegas chorarem, meu primeiro pensamento foi: ufa! Enfim um desenho que se parece com os clássicos! Opa…

Pois é assim que acontece, sem a gente perceber. É claro que não há mal nenhum em querer que a indústria cultural se esforce para criar obras de arte como foram “Alladin” em 1992, ou as canções de Ray Charles no seu tempo. O perigo está em rejeitar qualquer criação que não se pareça com essas.

“Mas como vou reconhecer uma obra de arte?”, você deve estar se perguntando agora. Basta ter paciência. Coisa rara, eu sei, quase impossível – mas é preciso. Anote na sua listinha de metas para 2014: ser mais paciente.

Um verdadeiro tesouro não se revela de uma hora para a outra – para que um filme, por exemplo, seja considerado bom, é preciso que ele tenha um roteiro surpreendente, um clima envolvente, personagens verossímeis, se possível uma bela fotografia e ótima qualidade de som, mas, principalmente, ele deve ter ficar na memória.

Centenas de filmes são lançados todos os anos, centenas deles são esquecidos na semana seguinte. Mas nem todos, não é mesmo? Há aqueles que, depois de dez anos, finalmente são reconhecidos como espelhos do seu tempo ou como obras-primas de seus criadores, pois continuam funcionando mesmo quando o contexto do espectador mudou. Isso é uma obra de arte. Você não saberá na hora e poderá nem gostar dela à primeira vista.

É basicamente por isso que consideramos o passado, em geral, melhor que o presente: todas as obras consagradas sobreviveram a dez, vinte, cinquenta anos antes de se tornarem canônicas. Nem é preciso dizer que, se por acaso você viveu essas obras na sua infância, elas se tornarão ainda mais importantes, ganhando valor afetivo além da qualidade intelectual.

Como, então, julgar o que vemos hoje nos cinemas, lemos hoje antes de dormir, ouvimos todos os dias nos rádios até decorarmos a letra? Como não sermos enganados por produtos que parecem bons, mas que na verdade são versões requentadas de outros sucessos?

Minha dica é: não julgue tanto. Curta o momento, cante sua música-chiclete, ria das piadas bobas de filmes perecíveis, descubra seu próprio gosto e permita-se conhecer os de outras pessoas. A mistura faz bem e não há nada melhor para o paladar do que a experiência. Experimente.

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