Os Sapatos (Parte 1)

Já fazia quase uma hora que Lisa encarava seus sapatos. Havia se distraído uma ou duas vezes com as manchas negras vazadas que iam e vinham, ora ocupando todo o chão à sua volta, ora escalando o muro de concreto que se erguia poucos centímetros à frente, elevando-se muito acima de seus 1,45m. Estava em fase de crescimento, mas sabia que provavelmente nunca alcançaria as folhas verde-escuras que lhe faziam aquelas sombras. Então, voltava aos sapatos.

Eles estavam sujos de terra.

O problema é que não sabia por que eles estavam sujos de terra.

Tentou recontar seu dia do início, mais uma vez: acordara às seis, tomara leite com chocolate e saíra para a escola. Ouvira o professor falar sobre a Terceira Guerra Mundial, correra cinco voltas na quadra e tocara violino, depois estudara matemática, pegara emprestado aquele livro de poesia na biblioteca e… Era aí que sua memória começava a falhar.

Até onde podia explicar, tinha voltado para casa na perua de sempre e não passara por nenhum canteiro com terra. Mas não conseguia ter certeza disso… Resolveu sentar e observar os sapatos mais de perto. Com as mãos, puxou o pé direito para junto do peito e franziu a testa.

Havia terra em toda a lateral e a sola estava lamacenta. “Não é algo que eu não perceberia”, pensou, preocupada. Então notou uma pedra azulada, minúscula, presa ao cadarço. Puxou o artefato com cuidado entre os dedos e aproximou-o dos olhos – nada, era apenas uma pedra azul. Abriu o zíper do bolso do agasalho e guardou-a ali, por precaução. Então teve uma ideia.

No final da rua, numa casa amarela e grande, morava Caco. Filho de diplomatas, ele era um ano mais velho que Lisa, mas estudava na mesma sala porque havia perdido um período viajando com os pais. Caco era a única criança que ela conhecia que já havia saído do país, mas a maioria dos alunos não falavam com ele por causa disso. Diziam que seus pais eram loucos e inventavam histórias sobre outros povos, mas ela tinha certeza de que, secretamente, o invejavam.

Tocou a campainha duas vezes, uma mais longa e outra curta, e esperou. Do outro lado, ouviu uma voz feminina adulta gritando da sala para o quarto: “Caco, é pra você!”. Dois minutos depois, um garoto alto, magro demais, de cabelos lisos pretos e óculos redondos apareceu à porta. Parecia estranhamente feliz em vê-la.

A primeira coisa que Lisa perguntou, quando já estavam devidamente trancados no quarto e abastecidos com suco e bolachinhas, foi sobre a saída da escola. Ficou sabendo que mentira ao motorista e fizera-o pensar que voltaria com a mãe mais tarde.

“É claro que eu desconfiei, porque sua mãe nunca sai do trabalho tão cedo” – continuou ele – “Então segui você.”

“Você o quê?? Então você sabe de onde veio essa lama toda?” – os olhos da menina brilharam de emoção, mas logo murcharam diante da expressão confusa do colega.

“É que… Você sumiu depois de entrar numa ruela.”

“Como assim, sumi?”

“Eu não sei… De repente você não estava mais lá.”

Lisa não pareceu satisfeita com a resposta e mordeu a tampa da caneta, pensativa. “Só há um jeito de saber… Precisamos voltar lá.”

***

[CONTINUA]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s