A Dilma é o menor dos seus problemas

Na noite do último domingo, minha sessão caseira de Whiplash foi interrompida pelo que me pareceram dez minutos de uma torcida fanática de futebol. A diferença é que não havia jogo àquela hora e que, no lugar de “chupa”, “juiz viado” e gracejos afins, o que se ouviu foram urros de “vagabunda”, “hipócrita” e “fora Dilma”.

Liguei a televisão. Será que nossa presidente havia dito algo tão inesperado e revoltante assim? Bem… Não exatamente. Ela vinha à rede nacional falar de (mais) impostos e pedir paciência – desagradável, mas não exatamente uma novidade.

Logo descobri que a manifestação tinha sido premeditada. Não importa o que ela falasse, haveria o panelaço. Ok, acho ótimo que o brasileiro finalmente tenha resolvido se manifestar, mas vem cá: chamar alguém de “vagabunda” no lugar de “incompetente” ou “corrupta” não é exatamente um protesto político, concorda?

Tampouco é coerente revidar com o mesmo ódio, xingando os manifestantes de “burguesinhos”, “filhinhos de papai” e deslegitimando o ato com apelidos como “panelaço de Le Creuset”. Desculpa, gente, vocês estão fazendo isso errado. De todos os lados.

A Dilma – seja você a favor ou contra – é o menor dos seus problemas. Tirá-la do poder não vai mudar um pingo do que é este país, regido por um sistema político corrupto, ganancioso e despreocupado com o bem-estar coletivo em todos os níveis possíveis, não só na presidência. E, quando digo “todos os níveis”, estou falando na sua casa também.

Pois não adianta nada querer mudar o mundo trocando de presidente se, no dia-a-dia, suas atitudes fazem este mundo um pouco pior. Você por acaso joga o lixo no lixo (até o que não é seu), cumprimenta as pessoas na rua, participa das reuniões de condomínio e efetivamente bota a mão na massa para melhorar seu bairro? E esse é só o primeiro passo.

O segundo exige um pouco mais de trabalho, consciência e coragem: é escolher, de fato, as pessoas que vão te representar nos cargos públicos. Você não gosta da Dilma nem do Aécio, mas ficou com preguiça de conhecer as propostas dos outros candidatos? Agora é tarde demais para reclamar.

O que chama a atenção é o fato de que a eleição de 2014 fez aflorarem antigos ódios de classe – e mais curioso ainda é que pessoas da mesma classe estejam se se identificando com lados opostos e jogando pedras sobre seus espelhos, como se tentassem se desculpar por alguma coisa. Como se odiar fosse uma atitude louvável, desde que se odeiem as pessoas certas.

Pois vamos tentar uma coisa diferente? Algo, assim, impensável, que nunca se viu antes neste país? Vamos tentar nos respeitar, a todos. A quem gostamos, a quem não gostamos. Ouvir o outro e expressar exatamente o que queremos (e não apenas o que não queremos). Vamos tentar dar o exemplo, e não esperar que ele venha de cima – porque já passou o tempo em que o chefe de Estado era um semideus. E entender que o país também é responsabilidade nossa.

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