“Frank”: personagem sem rosto lidera comédia dramática indie

Esqueça qualquer expectativa que você tenha sobre “Frank”. Um filme cujo protagonista veste uma cabeça de cartoon gigantesca e é o líder de uma banda psicodélica tem, acima de tudo, a obrigação de surpreender.

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O filme segue o ponto de vista de Jon (Domhnall Gleeson), um aspirante a músico que tenta encontrar nas situações mais cotidianas a inspiração para novas canções – em geral, sem sucesso. Um dia, após presenciar a tentativa de suicídio de um tecladista, Jon se oferece para substituí-lo num show.

A apresentação acaba sendo um desastre, mas, mesmo assim, a banda liderada pelo enigmático Frank (interpretado por um ator que manteremos em sigilo, mas que experimenta aqui uma postura totalmente diferente de qualquer outro papel em que já trabalhou) abraça-o como um novo integrante, e vai passar uma temporada no campo para gravar um álbum. O que acontece lá está além de qualquer explicação lógica, mas tem a ver com criatividade, loucura e as economias de uma vida inteira jogadas pelo ralo.

“Frank” é um filme sobre música tanto quanto é sobre solidão, sucesso e expectativas. Quebram-se as de Jon em relação a Frank e também as nossas em relação aos dois. Jon quer se sentir parte de uma banda revolucionária, mas não é. Ele quer que o Twitter lhe dê todas as respostas, mas não dá. Quanto a nós, queremos acreditar que Frank é um gênio da música e que Jon é o novato que vai  aprender com ele, mas também não é isso.

Ironicamente, são os personagens mais detestáveis (em especial a instrumentista histérica interpretada por Maggie Gyllenhaal) que trazem equilíbrio a essa estranha família – e entendê-la como uma família, por trás de todo o barulho, é essencial para se chegar são ao final.

O longa, escrito por Ron Jonson e Peter Straughan, é inspirado na história de um homem real chamado Chris Sievey – um músico que, nos anos 80, criou um personagem para comédias stand-up chamado Frank Sidebottom, que usava uma cabeça como a que vemos no filme.

Apesar de ser dedicado a Sievey, o Frank dos cinemas não é (nem pretende ser) o mesmo da vida real. Em primeiro lugar, ele não é apenas cômico. Sua postura é silenciosa e observadora e, à medida em que o conhecemos melhor, percebemos que sua identidade é essencialmente trágica.

A ligação com a música é um elo em comum entre os dois, mas até isso é distorcido no filme. Aqui, não se fazem canções “agradáveis”, mas criam-se obras de arte, íntimas e impenetráveis. Como consequência, o sucesso é apenas um horizonte distante na carreira-vida deste Frank – e talvez seja exatamente dessa distância que ele precise.

Texto publicado no Guia da Semana em 8/04/2015.

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