Crítica: “Que Horas Ela Volta?” discute conflito de classes com um misto de drama e humor

A relação entre empregadas e seus patrões, e entre elas e as crianças que acabam criando enquanto os pais trabalham fora, estão no centro das discussões no cinema mundial. O singapuriano “Quando meus pais não estão em casa” e o brasileiro “Casa Grande” já abordaram o tema no início do ano e, agora, “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, coloca novamente o dedo na ferida.

que horas

Regina Casé vive a empregada Val no filme que estreia no dia 27 de agosto nos cinemas brasileiros, depois de ser premiado nos festivais de Berlim e Sundance. Ela trabalha para uma família paulistana há mais de dez anos e, apesar de morar com os patrões, eles nunca se interessaram em saber muito sobre ela. Sua relação mais próxima é com o menino, Fabinho (Michel Joelsas), que confia nela para guardar segredos e dividir o colchão em noites de insônia – mas nem mesmo ele parece querer conhecer melhor aquela figura pernambucana.

A comodidade das relações superficiais se rompe quando Val anuncia que sua filha, Jéssica (Camila Márdila), com quem não se encontra há muitos anos, está indo a São Paulo para prestar o vestibular. Sem casa própria, a empregada é obrigada a trazê-la para a casa dos patrões, pelo menos até as provas acabarem.

O que começa como uma hospedagem fria, mas revestida de falsidade, evolui aos poucos para uma hostilidade aberta entre a dona da casa, Bárbara (Karine Teles), e a visitante Jéssica, que se revolta com a situação de servidão da mãe e não pensa duas vezes antes de ocupar o quarto de hóspedes, mergulhar na piscina ou comer aquela última colherada do sorvete do Fabinho.

Muylaert é tendenciosa: sua família rica não é apenas rica, mas também esnobe, cega e infeliz, o que torna o contraste com Val e Jéssica muito mais gritante. Não basta haver um incômodo, é preciso que a mãe seja uma crápula, o pai um tarado e o filho um mimado, para usar palavras tão estereotipadas quanto seus personagens.

Mãe e filha, em contraposição, são personagens complexas, que questionam uma a outra o tempo todo e aprendem com suas ações. É significativo, também, que a diretora/roteirista tenha escolhido Arquitetura como a profissão desejada por Jéssica: ao mirar uma das maiores notas de corte da Fuvest, a menina ganha algum prestígio na casa, como se isso a colocasse numa espécie de “elite intelectual” que compensasse sua posição social, ao contrário da mãe.

“Que Horas Ela Volta?” expande a discussão para temas como maternidade e família, tomando o cuidado de manter um tom bem humorado durante a maior parte do filme. No fim, as duas horas passam sem esforço, com algumas risadas, alguma indignação e uma reflexão para levar para casa.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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