Crítica: “Virando a Página” vai fazer você sair do cinema com um sorriso no rosto

Nunca subestime o poder de uma comédia romântica. Em tempos de super-heróis, naves espaciais e outras ousadias cinematográficas, podemos nos esquecer de como é revigorante assistir a um filme com o pé no chão, simples e bem escrito como “Virando a Página”.

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O novo longa do diretor e roteirista Marc Lawrence, do também ótimo “Letra e Música”, parte de um tema bastante próximo (o protagonista é um roteirista de Hollywood) para contar uma história universal de crise e reinvenção profissional na meia-idade. Na verdade, o tema parece se restringir cada vez menos à faixa etária e não seria surpresa se que muitos jovens de vinte-e-tantos anos também se identificassem com a situação.

Num aceno às comédias românticas dos anos 90 e numa gigantesca piada interna um pouco menos explícita que a de Michael Keaton em “Birdman”, Hugh Grant é o  ator escolhido para viver o papel principal. Ele é Keith Michaels, um roteirista de um único sucesso que, rejeitado pelos estúdios, aceita trabalhar como professor residente numa universidade em Binghamton, uma cidadezinha americana bem distante e bem diferente de Los Angeles.

Grant revive aqui alguns de seus maiores sucessos: seu Keith, prepotente e mulherengo, lembra o Daniel Cleaver de “O Diário de Bridget Jones” ou mesmo o Alex Fletcher de “Letra e Música”. A referência é claramente proposital, já que o ator vive um momento semelhante ao do seu personagem, sendo lembrado apenas pelos antigos sucessos, enquanto aprende que Hollywood pode ser uma mãe infiel.

O longa não se acanha em questionar a indústria do cinema e lança provocações muito oportunas: numa cena, por exemplo, dois representantes de um grande estúdio sugerem a Keith que escreva uma aventura com uma heroína forte e guerreira, pois é isso que é “fresco e novo”. Aham, nós entendemos: fresco, novo e muito lucrativo.

Confiante de que ainda voltará ao estrelato, Keith não leva a sério o trabalho de professor, o que rende alguns momentos bem divertidos – como a seleção dos alunos e a primeira aula. Aos poucos, porém, ele vai percebendo que esta é a sua nova realidade e que, se ele se esforçar um pouco, talvez consiga ensinar alguma coisa àqueles alunos.

Quem o ajuda nessa jornada de renovação é a estudante tardia Holly (Marisa Tomei), talvez a personagem mais surpreendente do filme, além do vizinho Jim (Chris Elliott) e do supervisor Dr. Lerner (J.K. Simmons). Allison Janney também ganha momentos hilários na pele da professora Mary, responsável pelo Comitê de Ética da faculdade e inimiga de Keith desde o primeiro dia.

Ao contrário do que poderia acontecer numa comédia mais rasa, grande parte dos personagens são bem desenvolvidos e não preenchem apenas funções pontuais na evolução do protagonista. Tomei, por exemplo, não é só o par romântico mais óbvio para Keith, mas também é uma mãe solteira que está estudando para realizar um sonho, enquanto trabalha em pelo menos dois empregos diferentes. Sua personalidade é positiva e extrovertida, mas seus conselhos são sensíveis e experientes, o que ajuda o protagonista a compreender a própria maturidade.

“Virando a Página” é uma comédia inteligente que chega no momento certo, provocando reflexões necessárias a uma geração que precisa repensar seus conceitos de talento, fama e carreira. A crítica não vem como um tapa na cara, mas sim com uma linguagem lúdica e otimista, garantindo que você saia do cinema uma tonelada mais leve e com um sorriso no rosto. Coisas assim, só uma boa comédia romântica consegue fazer.

Texto publicado no Guia da Semana em 18/06/2015.

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