A internet, as boas intenções e uma distopia contemporânea

Tinha ouvido falar muito sobre “O Círculo”, livro de Dave Eggers sobre uma corporação nos moldes do Google, previsto para virar filme em 2016. A parte do filme pode ser uma notícia muito boa ou muito ruim (especialmente se você considerar Tom Hanks para um dos papéis mais importantes), mas, por ora, consideremos apenas o livro. Uma das obras mais arrepiantes que já li nos últimos tempos.

O que impressiona em “O Círculo” é a atualidade da distopia criada por Eggers. Tudo aquilo poderia, muito bem, estar sendo contado nas páginas dos jornais (e, depois de chegar ao final, admito que me peguei olhando com certa desconfiança para as notícias da sessão de tecnologia).

circuloOs protagonistas são jovens da geração Y: inteligentes, rápidos, com espírito empreendedor e as melhores intenções possíveis. Eles querem mudar o mundo com um clique e acreditam no poder da inteligência coletiva – se cada pessoa compartilhar suas experiências e seus conhecimentos, a humanidade será mais forte.

A princípio, as ideias do Círculo (uma empresa de tecnologia que pretende unificar todos os serviços disponíveis na internet) são, de fato, sedutoras. Já imaginou poder votar, conversar, fazer compras e manter a saúde em dia com um único login?

O ambiente de trabalho, onde a protagonista May acaba de ser efetivada, também é um lugar dos sonhos (inspirado, obviamente, no campus do Google e na nova sede da Apple): os funcionários têm academia, plano de saúde, lojas sustentáveis, alimentação orgânica, festas, shows e até alojamentos gratuitos à sua disposição. Em troca, devem participar ativamente de uma rede social interna, ganhando pontos a cada curtida e sendo repreendidos a cada evento não “aproveitado”.

Estar atenta a todas as mensagens e notificações é parte do trabalho de May – o que, aos poucos, vai se acumulando de um jeito que até o leitor se sente sobrecarregado. A cada etapa, ela ganha uma nova tela para acompanhar: uma para receber mensagens dos chefes, outra dos consumidores, outra dos colegas e assim por diante. É preciso agradar a todos, o tempo todo, mas May nem se incomoda com isso. Ela está tão preocupada em manter o emprego que não percebe que está se transformando no mesmo tipo de funcionário robotizado que o Círculo jurou combater, e que ela mesma sempre repudiara.

O livro poderia explorar esse problema de forma maniqueísta, mostrando como os “chefes malvados” exploram os “novatos ingênuos”, mas não o faz. O tempo todo, Eggers nos mostra como a intenção utópica dos criadores (incluindo, em muitos momentos, a própria May) ofusca as consequências sombrias de suas criações, incluindo a superficialização das relações, a perda de privacidade e a ascensão de um curioso totalitarismo coletivo: no lugar de um único Grande Irmão, surge toda uma comunidade virtual de vigilantes.

Pense na repercussão que uma única frase dita (ou não dita) por uma celebridade pode ter nas redes sociais, hoje. Sem a barreira física, o linchamento é instantâneo. Todos são juízes, todos sabem o que é melhor para você e para o mundo. Juntos, vão às ruas demonstrar poder, enquanto, sozinhos, não conseguem formular a própria opinião – tornaram-se dependentes dos likes e compartilhamentos de pessoas que nunca viram.

É por isso que “O Círculo” se faz uma obra necessária em tempos de relações virtuais. É como se cada selfie ganhasse uma função social, evoluindo aos poucos para uma câmera permanentemente ligada. Em nome da transparência, o indivíduo se permite reduzir a instrumento mediador entre o mundo real (cada vez menos humano) e o virtual (onde todos podem conhecer tudo, desde que também compartilhem tudo). Assustador, mas não tão absurdo assim.

O exagero faz parte da ficção, é claro, mas essa fantasia, às vezes, permite olhar para a realidade com olhos mais críticos. Será que não estamos nos cobrando demais para sermos sociáveis e, nessa obrigação de postar, não estamos perdendo a oportunidade de viver e pensar com nossos próprios pés, olhos e coração? Vale a pena parar e refletir.

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