Que Horas Ela Volta?, Straight Outta Compton e o que Matt Damon não entendeu sobre diversidade

O mundo mudou. Há quem não consiga acompanhar as novidades, mas acreditar que a humanidade é caucasiana, que lugar de mulher é na cozinha ou que o mundo é dividido entre ricos e pobres, cidadãos e estrangeiros, é viver ao lado dos dinossauros. E 2015 está provando isso como nunca.

Não é coincidência que, pouco depois de Anna Muylaert ter sido envergonhada pelos colegas durante um debate sobre seu filme “Que Horas Ela Volta?”, esse mesmo filme foi eleito para representar o Brasil no Oscar, estourou na Europa uma das maiores crises de imigração já vistas, três longas com elenco negro dominaram as bilheterias norte-americanas e Matt Damon deu uma aula de ignorância sobre diversidade.

Para quem não acompanhou as polêmicas, explico:

No final de agosto, a diretora Anna Muylaert participou de um debate com o público em Pernambuco após a exibição do seu filme, ao lado dos também cineastas Lírio Ferreira e Cláudio Assis. Embriagados, os dois passaram a noite interrompendo a colega e fazendo comentários superficiais e infantis sobre o longa (como chamar Regina Casé de “gorda”). Para Anna, o incidente foi um bom exemplo do orgulho ferido de dois homens pouco acostumados a estarem no palco como coadjuvantes de uma mulher, e não como os donos do show. (Nota: para quem vos fala, a atitude não passou de um exemplo de má educação, o que normalmente acaba descambando para comentários machistas porque assim são nossas piadas e xingamentos).

O fato de “Que Horas Ela Volta?” ter tido tanta repercussão também não é por acaso. O filme traz duas protagonistas que pertencem à mesma classe social, mas têm percepções totalmente diferentes sobre seus papéis. Enquanto a mãe (Casé) trabalha como empregada na casa de uma família rica e considera normal sua submissão, a filha (Camila Márdila) estuda para ser arquiteta e exige um tratamento igual ao de qualquer outro morador da casa.

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Em meio a alguns estereótipos (especialmente no que diz respeito à família rica), quem se destaca é a filha, que mostra o quanto esse “lugar pré-estabelecido” vem perdendo importância para as gerações mais jovens.

É pensando nesse “lugar pré-estabelecido”, também, que podemos traçar um paralelo com o problema da imigração na Europa. Não apenas o dos refugiados da Síria, mas dos senegaleses, dos brasileiros e de tantos outros seres humanos que, por uma razão ou outra, decidiram morar em algum lugar diferente do que nasceram. Essa mistura soa natural para nós, formados por um pouco de tudo e acostumados à hospitalidade, mas, para franceses, alemães ou mesmo estadunidenses, a nacionalidade é uma ideia muito mais enraizada, assim como o medo do estrangeiro.

Mas essa mistura, quer eles queiram, quer não, já aconteceu. straightNos Estados Unidos, por exemplo, a população latina e afrodescendente já é tão relevante que, nas últimas cinco semanas, três produções modestas com elenco majoritariamente negro ocuparam o topo das bilheterias, surpreendendo até os próprios exibidores. Em meados de agosto, o documentário sobre rap “Straight Outta Compton” jogou “Missão: Impossível – Nação Secreta” para o segundo lugar e se manteve no topo por três semanas seguidas. Depois, o lugar foi ocupado pelo evangélico “War Room” e, em seguida, pelo suspense “The Perfect Guy” – todos com protagonistas negros.

Filmes mexicanos, como a comédia “No Se Acceptan Devoluciones” (2013), também andaram atraindo bilheterias muito maiores do que o esperado – já que a indústria constrói suas expectativas com base na ilusão de que negros e latinos (e mulheres, pensando nos blockbusters) são “minorias” a serem atendidas em pequenas cotas.

Para completar a discussão, coloco aqui a mais recente escorregada do ator Matt Damon, durante a gravação de um programa chamado “Project Greenlight” (criado por ele e Ben Affleck), em que ele coloca jovens cineastas numa competição para realizarem seu primeiro longa-metragem. Durante uma entrevista com a produtora Effie Brown, Brown apontou o perigo da redução de personagens negros a estereótipos e, falando sobre um roteiro em que a única personagem de cor era uma prostituta que apanhava do cafetão branco, sugeriu que a equipe pensasse num diretor (todos os escolhidos eram homens brancos) que pudesse compreender essa personagem de forma menos plana.

Damon parece não ter gostado da colocação e, sem pensar duas vezes, disparou a pérola do ano: “Quando se fala de diversidade, você o faz no elenco do filme, não no elenco do show”. É, Damon… Só que não.

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Cada uma dessas questões, é claro, tem suas particularidades e sua gravidade proporcional, mas há uma ideia que se firma um pouco mais a cada evento de misoginia, racismo ou xenofobia (poderíamos acrescentar a homofobia também) que invade os noticiários: a tolerância à “narrativa única” está se esgotando.

“Narrativa única”, como apontou a escritora africana Chimamanda Adichie numa palestra do TED, é a da mocinha branca que vive num ambiente frio e nevado, é ameaçada por uma mulher má (esse item é por minha conta) e salva por um homem branco (idem). Não que esse tipo de conto de fada não possa ter um espaço na cultura internacional (afinal, parte da população é branca, parte das mulheres são ingênuas ou invejosas e parte dos homens é heroico), mas, convenhamos, isso não cobre todas as possibilidades.

O mundo mudou. É hora de o cinema mudar também.

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