Crítica: “A Travessia” narra proeza real com humor, poesia e vertigem

Um aviso para quem tem medo de altura: “A Travessia” será o filme mais agonizante que você verá nos cinemas este ano – mas o esforço valerá a pena. Baseado na história real do equilibrista francês Philippe Petit, que atravessou as Torres Gêmeas sobre uma corda de aço, sem proteção, nos anos 70, o novo longa de Robert Zemeckis (“De Volta Para o Futuro”, “Forrest Gump”, “O Voo”) procura recriar, com a ajuda do 3D, a sensação de vertigem e liberdade que o artista sentiu ao realizar sua obra máxima.

travessia

Quem assume a missão de andar sobre a corda bamba diante das câmeras é o ator americano Joseph Gordon-Levitt, que capricha no sotaque francês (além de mostrar fluência na língua, que estuda há mais de dez anos), tira do baú suas estranhas lentes de contato azuis (como as que usara em “Looper”) e exibe um penteado de época que, definitivamente, não lhe cai bem.

Gordon-Levitt, como sempre, se entrega 100% ao personagem e isso transparece em cada gesto circense, em cada piada levemente arrogante e em cada expressão de tensão ou êxtase quando seus pés estão sobre a corda. A escolha do ator para o papel principal é um dos grandes acertos de Zemeckis, que inclusive o coloca para narrar a história do alto da Estátua da Liberdade.

Apesar de ser um filme baseado numa história real, “A Travessia” tem uma boa dose de poesia, com pequenos detalhes românticos que tornam tudo mais leve. O espectador sabe que nem tudo o que está na tela é exatamente como aconteceu, mas ver Philippe e Annie (Charlotte Le Bon) tendo sua primeira conversa como mímicos de rua, ou acompanhar toda a equipe de “cúmplices” planejando a instalação clandestina das cordas no maior estilo “Missão: Impossível” faz com que a aventura seja muito mais interessante e divertida.

Outro ponto forte do longa é a capacidade de Zemeckis de criar tensão, mesmo quando o espectador já conhece o desfecho. Por mais que você saiba que está numa sala de cinema, vendo uma história encerrada há mais de 40 anos, é impossível não prender a respiração quando Philippe e Jean-François (César Domboy), um professor de matemática com fobia de altura, sobem juntos ao 110º andar e começam a preparar os equipamentos.

O interessante é que a maior parte do filme se desenrola antes que a travessia tenha início. A inspiração e o treino ocupam a primeira parte, a investigação e o planejamento (já que a performance é completamente ilegal), a segunda, e apenas no terceiro ato vemos Philippe realizar seu sonho. E, quando isso finalmente acontece, é totalmente diferente do que você espera – e melhor.

“A Travessia” chega aos cinemas no dia 8 de outubro e terá pré-estreias a partir do dia 1º em salas selecionadas. Se puder (e se tiver coragem), assista em 3D.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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