Crítica: “Nocaute” traz de volta aos cinemas o glamour e a disciplina do boxe profissional

Fazia algum tempo que um filme sobre boxe não aparecia entre as grandes estreias de cinema. O esporte, afinal, caiu para segundo plano desde que o MMA conquistou prestígio na televisão e, sem que percebêssemos, Rocky Balboa passou de herói contemporâneo a personagem nostálgico, remanescente de um século distante.

nocaute

É para relembrar esse tempo que chega aos cinemas o novo longa de Antoine Fuqua (“Dia de Treinamento”), “Nocaute”. O filme pode não trazer grande novidade ao gênero, mas devolve às telas um pouco do boxe das antigas, evidenciando o contraste entre a luta como espetáculo (movida a força e adrenalina) e como esporte (regada a técnica e disciplina). Em destaque, está o papel do mestre como guia para uma transformação física e mental, como nos filmes clássicos de artes marciais.

Jake Gyllenhaal é quem carrega, nos ombros musculosos e nos olhos expressivos, toda a intensidade desse drama. Ele transformou seu corpo radicalmente para interpretar Billy Hope, um campeão explosivo e imprudente, que considera a defesa um acessório dispensável.

Seu estilo é mostrado com exaustão durante um longo combate nos minutos iniciais. Aos mais avessos à violência, este não é um momento agradável – mas é necessário para compreendermos o universo agressivo e glamoroso de Hope. Quanto mais ele apanha, mais é incentivado pelo público e por seu agente e mais energia acumula para o round final.

Sua lealdade, contudo, está com a esposa, Maureen (Rachel McAdams), que teme por sua saúde e pede que ele pare, o que ele começa a considerar depois de uma recuperação especialmente difícil. Este, porém, é um filme sobre luta e é claro que o protagonista não ficará longe dos ringues por muito tempo.

Logo, uma tragédia acontece e Hope se vê perdido, sem o apoio de Maureen e numa batalha judicial pela guarda da filha, Leila (Oona Laurence). Perturbado e descontrolado, ele precisará da ajuda de um novo treinador (Tick Wills, interpretado por Forest Whitaker) para colocar sua vida de volta aos trilhos.

O título original, “Southpaw”, faz referência a um golpe de esquerda que quebra as expectativas do adversário e pode inverter o jogo. A escolha faz todo o sentido, já que a trajetória de Hope sofre uma inversão semelhante, do caos ao controle, da vitória quase milagrosa ao sucesso pelo treinamento duro.

Apesar da relação entre Hope e Wills ser bem trabalhada (os dois, inclusive, compartilham sequelas semelhantes), o passado do treinador não é explorado o suficiente e o público não tem a chance de se envolver tanto quanto poderia. O mesmo vale para o principal rival de Hope, Miguel Escobar (Miguel Gomez), cuja presença serve mais para provocar e canalizar as ações do protagonista do que como um personagem por si só.

“Nocaute” deve seu impacto às atuações, especialmente de Gyllenhaal, Whitaker e da pequena Laurence, que conseguem emocionar em diferentes momentos. A história não foge muito do padrão queda-e-superação que se espera de um filme desse tema, mas a abordagem é bastante realista e as cenas de luta, magnetizantes. No final, o público ganha o que sempre sonhou e nunca encontrou nos ringues da vida real: um grande duelo com uma grande história por trás, para torcer até o último round.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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