Crítica: “Straight Outta Compton – A História do N.W.A.” dá uma aula de história social e musical americana

Quando “Straight Outta Compton” estreou nos Estados Unidos, em agosto, ninguém esperava que a cinebiografia dos rappers do grupo N.W.A. (sigla para “negros com atitude”) fosse superar “Missão: Impossível – Nação Secreta” e “O Agente da U.N.C.L.E.” e arrecadar mais de US$ 60 milhões num único fim de semana. O filme ainda se manteve no topo das bilheterias por três semanas e embolsou um total de US$ 196 milhões desde então. O custo de produção não chegou a um sexto disso.

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O público brasileiro pode não estar tão familiarizado com os artistas em cena, mas, para o rap americano, Ice Cube, Dr. Dre, Easy-E, DJ Yella e MC Ren foram os precursores que tornaram possível o sucesso de músicos como Eminem e 50 Cent, trazendo da vivência nas ruas letras sobre violência, drogas e a luta contra a polícia.

Apesar de tratar de uma realidade bastante específica, “Straight Outta Compton” (que ganhou o subtítulo “A História do N.W.A.” no Brasil) não é um filme apenas para fãs de rap. A música, é claro, está por toda a parte e compõe uma trilha sonora excepcional, mas há muito mais em jogo do que rimas e batidas.

O filme acompanha a história do grupo desde a sua formação, nos anos 80, até meados dos anos 90. No caminho, passa por dezenas de casos de preconceito racial, escancara a violência entre gangues e a corrupção na indústria musical, lembra o escândalo envolvendo a agressão de Rodney King pela polícia em 1991 e chega ao auge da epidemia de AIDS na mesma década. A história da música, não resta dúvida, reflete a trajetória de todo um país.

O longa tem duas horas e meia de duração, mas nunca perde o ritmo. Ao invés de seguir à risca o formato tradicional das cinebiografias musicais (a ascensão e queda de um talento perturbado pelas drogas, pelo dinheiro ou por um amor mal resolvido), o filme poupa julgamentos, mostra que nem todo excesso é seguido por fracasso e se enriquece com o romance histórico que constrói nas entrelinhas.

Em pouco tempo, nossa atenção é fisgada pela autenticidade dos personagens (interpretados por Corey Hawkins, Jason Mitchell, Neil Brown Jr., Aldis Hodge e O’Shea Jackson Jr., filho de Ice Cube) ou pela identificação com o cenário de censura e tensão social, sempre pulsante. Nesse contexto, como Cube afirma em certo momento, a música assume o papel de imprensa, levando a todo o país um retrato do cotidiano de um submundo habitado por traficantes e gangues, mas também por artistas, estudantes e pessoas comuns, que já se acostumaram a viver em meio à violência de ambos os lados (da lei e de fora dela).

Mais espantoso do que a agressividade das letras dos raps (que falam de morte e tráfico como se fossem “bom dia”) é a atualidade da situação. Dois anos depois do excelente “Fruitvale Station” denunciar o abuso de poder de policiais contra jovens da periferia, e no mesmo ano em que os Estados Unidos foram tomados por protestos civis contra o assassinato de negros desarmados por esses mesmos policiais, “Straight Outta Compton” chega para mostrar que as questões raciais ainda não estão nem perto de serem resolvidas. Mas que o cinema está de olhos bem abertos.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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