Crítica: “Aliança do Crime” traz Johnny Depp no papel mais sinistro de sua carreira

Filmes de gângster nunca fogem muito do padrão: um líder paternalista resolve todos os seus problemas (e dos “apadrinhados”) na base da violência, enquanto mantém uma relação suficientemente próxima com a polícia para que ela não prejudique “os negócios”. “Aliança do Crime” é assim, mas ao mesmo tempo não é. É algo diferente.

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Johnny Depp, saindo completamente de sua zona de conforto, interpreta James “Whitey” Bulger, um criminoso do sul de Boston que, aos poucos, consegue assumir o controle de toda a cidade com a ajuda do F.B.I.. A parceria se dá por intermédio de John Connoly (Joel Edgerton), um agente que cresceu na mesma vizinhança de Bulger e que o tem como herói de infância.

Bulger não é, entretanto, aquela figura carismática que se espera de um chefão do crime: ele é um psicopata, e todos sabem disso, mas é um psicopata esperto. É impossível dizer “não” a ele, pois isso provavelmente significaria sua morte. Aliás, este é um dos assassinos mais intolerantes que já vimos nos cinemas: bastou fazer uma piada de mal gosto ou responder com as palavras erradas, e você já era.

O filme sabe que seu protagonista não é alguém com quem o público irá se identificar, por isso, adota o ponto de vista dos seus colaboradores mais fiéis: Connoly, Kevin Weeks (Jesse Plemons), Steve Flemmi (Rory Cochrane) e John Martorano (W. Earl Brown). O resultado é que o espectador consegue sentir o medo que a simples presença do gângster provoca, ao invés de forçar uma empatia com o vilão.

Há duas cenas inesquecíveis, que ajudam a formar a personalidade de Bulger e criar a tensão: na primeira, ele ensina seu filho que bater no colega na escola não é errado – errado é ser visto fazendo isso. “Se ninguém viu, não aconteceu”, professa. Na segunda, ele sobe para conversar com a esposa de Connoly, que se trancara no quarto durante um jantar entre os amigos. O que esperar de uma invasão de privacidade tão descarada? Que reação deveria ter o policial? Quanto a nós, apenas observamos, esperando o pior.

Depp acerta no tom, sem se tornar irreconhecível no papel – é possível perceber sua excentricidade transparecendo em algumas cenas, mas nunca tão solta e efusiva quanto nos seus papéis mais famosos. Aqui, ele está soturno e cheio de ódio. Por outro lado, não se vê uma evolução muito grande no seu personagem: apesar de ser anunciado que ele “teria se transformado” após algumas tragédias pessoais, isso não fica tão claro no filme. O Bulger que vemos no início é o mesmo do fim.

“Aliança do Crime” ainda conta com Benedict Cumberbatch no papel do irmão de Bulger (um personagem bem interessante, diga-se de passagem), Kevin Bacon como o chefe de Connely no F.B.I. e Dakota Johnson como esposa do criminoso. O filme estreia nos cinemas no dia 12 de novembro e é uma pedida obrigatória para quem gosta de histórias de máfia, crimes e corrupção policial, mas procura uma abordagem diferente, mais intimista e intimidante.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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