Ficção não é só entretenimento

Estes dias estava discutindo com o meu noivo sobre a dificuldade de algumas (muitas) pessoas pensarem além do seu limitado universo umbigário. Dos pequenos assaltantes dos jornais diários até os terroristas organizados, passando por líderes nacionais e pessoas comuns como eu e você.

É muito mais fácil pensar que o mundo que você conhece e no qual cresceu (seja ele uma favela onde o traficante tem status, uma comunidade fortemente cristã, um país muçulmano ou uma família super hipster-século-XXI) é o único, ou o único correto em todo o mundo. A gente sabe que não é, mas o “outro” continua parecendo uma criatura ameaçadora que vai invadir nossas casas para arrancar nossos valores de nós a qualquer momento. E às vezes, é exatamente isso que ele faz, pelo mesmo medo que ele tem de você (ou, pior, porque ele não enxerga você).

Mas é fácil falar. Como é que se constrói uma visão de mundo mais ampla, para que esse medo se transforme, quem sabe um dia, em tolerância? Como é que se forma uma pessoa capaz de se colocar no lugar do outro? Eu arrisco uma resposta em uma única e maravilhosa palavra: ficção.

sense8
A série Sense8, dos irmãos Wachowski, é uma aula de diversidade

Ficção não é só entretenimento, apesar de ser essencial que seja isso, também. Ficção é uma história sobre um mundo diferente do seu, com personagens diferentes de você, com os quais você consegue se identificar mesmo que não tenham, à primeira vista, nada em comum. E é nessa relação mágica com a literatura, o cinema, os quadrinhos, o teatro ou a televisão que você descobre que o Outro, apesar das aparências, pode ter os mesmos sentimentos que você.

Há um problema, porém, que a autora Chimamanda Adichie já apontou em seu discurso TED como “o problema da narrativa única”. Afinal, até na ficção existe hegemonia e a maioria das histórias que chegam ao grande público falam de homens brancos, ricos e héteros, que vivem nos Estados Unidos ou na Europa e têm uma formação católica. Nesse cenário, é bastante compreensível que aqueles ali representados desenvolvam uma rejeição aos não representados e estes, criem suas próprias fábulas – locais, ufanistas, xenófobas.

Não me entenda mal: arte local não é ruim. Pelo contrário, é essencial que o Brasil desenvolva sua própria literatura, seu próprio cinema, etc. e tal. Mas essa arte não pode ignorar a diversidade, nem interna, nem externa à cultura do seu país, pois isso só geraria mais ódio, incompreensão e medo. Em tempos de internet e convergências, é essencial que a humanidade se enxergue como tal – e não como um conjunto de comunidades isoladas e conflitantes. Que se mostre a diversidade de religiões, que se reconheça a diversidade de etnias, que se respeite a diversidade de gêneros, até que a mera existência do “diferente” se torne natural.

Será possível alcançar essa utopia? Talvez não, provavelmente não. Mas sugiro olhar para a ficção com mais carinho e cuidado daqui para a frente – pois é agora que ela se faz mais necessária. Procure novas ficções, abra-se para outros discursos. E, se essa for a sua vocação, siga os conselhos do mestre Neil Gaiman e faça boa arte.

 

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