Crítica: “As Memórias de Marnie” explora aspectos sombrios da infância com melancolia e delicadeza

Se você gosta de animação cinema e ainda não conhece o estúdio Ghibli, está mais do que na hora de preparar uma maratona e mergulhar nesse universo mágico e sensível que é a animação artesanal japonesa. Fundado por Hayao Miyazaki ( “A Viagem de Chihiro”), Isao Takahata ( “Túmulo dos Vagalumes”) e pelos produtores Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma, o estúdio traz aos cinemas neste mês mais uma pequena pérola: “As Memórias de Marnie”, de Hiromasa Yonebayashi (“O Mundo dos Pequeninos”).

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Não espere nada parecido com uma comédia infantil vindo daquele canto do mundo: “Marnie” é introspectivo como sua personagem principal, Anna. Com cerca de onze anos, Anna é uma garota solitária que se sente muito diferente das outras – fora do “círculo”, como ela mesma coloca. Observadora, ela cultiva um talento muito grande para desenhos e tem em seu caderno seu melhor amigo.

Segundo descobrimos por sua “tia”, Anna já foi mais alegre, mas, de uma hora para a outra, parou de demonstrar emoções. Sabemos que ela é adotada e guarda um sentimento de rejeição associado a isso, mas, a princípio, não fica claro qual foi o acontecimento que provocou essa ideia.

A história começa, realmente, quando a protagonista é mandada para a casa de outros parentes, para passar as férias numa região mais verde e se curar da asma. É lá que ela se encanta com um casarão, isolado por um rio que só se enche durante algumas horas por dia, e é lá que ela conhece sua misteriosa moradora, Marnie.

A relação que Anna desenvolve com Marnie é algo que vai além de amizade, e isso faz pensar. É como se Marnie, loira, rica e extrovertida, fosse o oposto da protagonista, tímida e “tomboy” (levamos algum tempo, inclusive, para perceber que Anna é menina). Mas também não é uma relação romântica, simplesmente: é uma admiração, como se uma representasse tudo o que a outra gostaria de ser e, juntas, elas pudessem fugir de suas realidades, ambas solitárias. Juntas, mesmo nas circunstâncias mais impossíveis, elas se ajudam a superar seus medos.

Mas, e se Marnie não estiver realmente ali? E se ela nem for real? Não importa, o efeito é o mesmo. Anna está mais do que acostumada a preferir fantasias à vida real e ela não questiona, nem por um momento, a natureza daqueles encontros. Isso também faz pensar.

“As Memórias de Marnie” estreia no dia 19 de novembro e é uma belíssima porta de entrada para quem ainda não conhece o trabalho do estúdio: tocando em temas pesados como depressão e isolamento, mas de forma delicada, o filme mostra toda a complexidade do cinema de animação japonês. Para os fãs da marca, “Marnie” também não deve decepcionar. É tão emocionante e tão estonteantemente belo quanto se poderia esperar de um Ghibli. Imperdível.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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