Crítica: “À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sincero sobre amor

À Beira-Mar” não é um filme fácil. O terceiro longa-metragem dirigido por Angelina Jolie (e o segundo escrito por ela) é seu projeto mais pessoal até agora, mas também o mais maduro. Na tela, ela e o marido, Brad Pitt, se insultam, se machucam e se compreendem apesar de tudo, sob um cenário que oscila entre a paz silenciosa e a sensualidade latente.

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O filme se passa nos anos 70 e tem como protagonistas Roland (Pitt) e Vanessa (Jolie), um casal junto há 14 anos que decide passar uma temporada num hotel isolado numa praia francesa. Ele busca inspiração para seu novo livro, mas não consegue completar uma linha, falha que a companheira não hesita em apontar.

Os dois formam um quadro estranho: nunca estão juntos e, quando estão, tudo o que fazem é hostilizar um ao outro. Ela, aliás, não é uma personagem fácil de gostar: logo na primeira cena, insiste em andar sobre a areia de salto alto e reclama do cheiro dos peixes. Mas o filme, inteligente e paciente, nos obriga a observar por mais tempo do que seria confortável e, finalmente, a compreender essa personagem como Roland.

Num certo momento, o marido descreve os dois como o casal perfeito de Nova York: “eu era um escritor e ela, tinha um corpo incrível”. A depreciação de Vanessa não é acidental e ajuda a compor o contexto psicológico da personagem, necessário para entender suas reações. Estes são os anos 70 e ela cresceu acreditando no casamento como um dos objetivos finais na vida de uma mulher. Por isso, quando questionada sobre sua profissão, define-se como “esposa” e resigna-se a passar dias inteiros ociosa dentro do quarto do hotel.

Se, no início, enxergamos os dois como um casal cansado um do outro, aos poucos percebemos que há uma ferida mais profunda afastando os dois. O comportamento dela, que repele ao mesmo tempo a ele e a si mesma, se aproxima mais de uma depressão do que da simples arrogância que ela se esforça em aparentar.

A montagem, que em alguns momentos sobrepõe diálogos a imagens fugidias, ajuda a expressar visualmente a relação entre os dois: as palavras de Roland parecem não atingir Vanessa, cada vez mais imersa no ódio a si mesma. A trilha sonora, composta por Gabriel Yared (que já trabalhara com a diretora em “Na Terra de Amor e Ódio”), também participa da narrativa, inserindo um tom melancólico e quase conformado ao drama – o que combina com a tranquilidade do mar e com a proposta geral do filme. “É preciso nadar de acordo com as ondas”, lembra Roland.

Além de Jolie e Pitt, o longa também traz Niels Arestrup como o dono do restaurante e Mélanie Laurent e Melvil Poupaud como os recém-casados que ocupam o quarto vizinho aos protagonistas – um casal jovem, feliz, amigável e incansável na cama, que traz à tona todas as feridas do casal veterano.

“À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sobre amor. Um filme lento, fique avisado, mas ainda assim intenso, sobre a realidade bruta da vida a dois. A estreia está marcada para o dia 3 de dezembro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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