Crítica: pesado e sem ritmo, “O Bom Dinossauro” caminha para se tornar o primeiro grande fracasso da Pixar

Até mesmo os grandes estúdios falham. No início deste ano, a Pixar trouxe aos cinemas uma das animações mais emocionantes e originais de todos os tempos, um filme que não surpreenderia ninguém se aparecesse entre os indicados às categorias mais altas do Oscar, lado a lado com live actions. Agora, menos de 12 meses depois, a mesma casa apresenta um longa que é o oposto disso.

dinossauro

O Bom Dinossauro” não é nem emocionante (pelo menos, não genuinamente), nem original. O filme se esforça demais para provocar tristeza e acaba assumindo um tom pesado, apoiado numa trilha melodramática e em cenas duras e apelativas. Para os adultos, tudo soa muito novelesco, mas, para as crianças, pode ser uma experiência traumática, já que falta a compensação de um final otimista ou dos personagens engraçados que normalmente equilibrariam as emoções.

O filme conta a história de um dinossauro chamado Arlo, que é o mais medroso de sua família. Depois de fracassar nas tarefas básicas da fazenda dos pais (sim, esses dinossauros são fazendeiros), ele tem a chance de se redimir se conseguir matar a criatura que está roubando toda a comida armazenada no silo. Na hora H, ele descobre que o ladrão é um menino humano (primitivo, que age como um cãozinho), sente pena e deixa-o fugir.

Quem tem um mínimo de experiência com filmes infantis já consegue descobrir, por esse prelúdio, tudo o que acontecerá em seguida: Arlo tentará consertar a situação, provocará um desastre e acabará se afastando da fazenda, depois reencontrará o menino (a quem chamará de Spot), se tornará amigo dele e passará o resto do filme procurando o caminho de casa.

Se a trajetória do protagonista parece tão previsível, alguns elementos são ainda mais familiares, descaradamente copiados do clássico infantil “O Rei Leão”. Há cenas inteiras reaproveitadas, além de personagens e situações muito semelhantes. Como se não bastasse, o ritmo não funciona: a jornada é lenta, as cenas dramáticas são exageradamente longas e os momentos de humor são curtos demais.

Tudo isso contribui para que “O Bom Dinossauro” seja, como vem se anunciando, o primeiro grande desastre comercial e de crítica do estúdio, mas a verdade é que os problemas começaram muito antes de ele chegar às telas. Marcado inicialmente para 2013, o projeto passou por uma troca de direção (de Bob Peterson, de “Up! Altas Aventuras”, para Peter Sohn, que só dirigira até então o curta “Parcialmente Nublado”), porque, segundo o presidente da Pixar Edwin Catmull, “Às vezes os diretores se envolvem tanto com suas ideias que é preciso uma pessoa de fora para terminá-las”. Mas isso não foi tudo.

Com a mudança, todo o roteiro foi reescrito e alguns personagens foram alterados, afetando também o elenco e exigindo novas gravações. O que vemos nos cinemas é a última versão de um texto produzido a dez mãos, retrabalhado diversas vezes porque ninguém acreditava que a história estava dando certo. Bem, talvez fosse o caso de desapegar e começar tudo do zero.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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