Crítica: “Brooklin” reconstrói o clichê da “garota do interior” com personagem mais humana

Todos os anos, a Academia surpreende o público com a indicação de um título pouco conhecido entre os concorrentes a Melhor Filme. Em 2015, foi “Selma”; em 2014, “Philomena”. Este ano, o “patinho feio” é “Brooklin”, indicado também a Melhor Atriz e Roteiro Adaptado.

“Brooklin”, adaptação do romance homônimo de Colm Tóibín, é um bom filme, mas falta-lhe ambição. A história da garota irlandesa que se muda para os Estados Unidos e volta, só para perceber que sua cidadezinha ficou pequena demais para ela, é envolvente, mas não chega a surpreender.

Saoirse Ronan carrega o filme com seus olhos expressivos e uma simpatia natural (não há dúvida de que veremos muito mais da atriz nos próximos anos) e se revela uma forte concorrente à estatueta dourada (muito mais versátil do que a favorita Brie Larson). É fácil gostar de sua personagem, Eilis, e ela tem um realismo que faz com que acompanhemos sua jornada como se a conhecêssemos bem.

A evolução de Eilis não é muito diferente da de qualquer protagonista que sai do interior para se aventurar na cidade grande, mas há uma distinção essencial: seu conflito é interno, não externo. Não há um inimigo que se aproveita de sua ingenuidade provinciana, nem um homem que a ilude ou aprisiona – pelo contrário, ela sabe o que quer e, se surge uma dúvida em algum momento, é porque ela precisa escolher uma vida, uma carreira e um país que se encaixem melhor em suas ambições. Cabe a ela, não a algum salvador, decidir seu futuro.

Se a construção da protagonista é um ponto positivo em “Brooklin”, incomoda a visão estereotipada com a qual os Estados Unidos são retratados, com direito à mais do que gasta imagem da “porta luminosa” para mostrá-lo como o país das oportunidades. Felizmente, os clichês se limitam a maiôs de pin-up e óculos de gatinhos, sem a necessidade de bandeiras flamulantes pelos cantos.

Os personagens coadjuvantes ajudam a tornar o filme mais divertido para o público, da rabugenta Miss Kelly (Brid Brennan) ao pequeno e desbocado Frankie (James DiGiacomo), passando pela espontânea dona da pensão Mrs. Keogh (Julie Walters), que ganhará uma série própria na BBC. “Brooklin” estreia nos cinemas brasileiros no dia 11 de fevereiro e é uma boa opção para quem procura um filme otimista, romântico e inteligente, sem ser pretensioso.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

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