Crítica: apesar das expectativas, “O Escaravelho do Diabo” não consegue deixar sua marca

Se você está lendo este texto, provavelmente já ouvir falar em “O Escaravelho do Diabo”. O longa, que chega aos cinemas no dia 14 de abril, é a adaptação de um dos maiores clássicos juvenis brasileiros, publicado inicialmente em 1953 por Lúcia Machado de Almeida, depois incluído na Coleção Vaga-Lume em 1972 e reeditado infinitamente (27 vezes, na verdade) de forma que, praticamente, todas as gerações já tiveram algum contato com ele.

O filme toma algumas liberdades, mas tenta manter a atmosfera de suspense da obra original. A história, em geral, é a mesma: um assassino em série está atacando ruivos numa cidade do interior e, antes de matar cada alvo, envia a ele um escaravelho. Quem investiga o caso é o irmão da primeira vítima, Alberto (Thiago Rosseti), que, no filme, é um garoto de 12 anos.

Esta é uma das principais diferenças em relação ao livro, já que o protagonista costumava ser um estudante de medicina, bem mais velho. Talvez a intenção seja que, na tela, as crianças se identifiquem com alguém da idade delas, mas é questionável se isso funcionará ou não com um personagem tão apático.

Após ver o irmão morto, por exemplo, o garoto tem uma conversa com o delegado Pimentel (Marcos Caruso) que só pode ser descrita como surreal: ele não apenas mostra que não entendeu o que aconteceu (um sinal de choque, mas pouco convincente na cena), como não se enraivece quando o policial o aborda de forma totalmente insensível. Mais tarde, Alberto será mostrado como um jovem de instinto investigador, mas suas pesquisas sobre o assassino terão pouca ou nenhuma relevância para o desenvolvimento da história.

O filme sofre um pouco com atuações caricatas (herança, sem dúvida, do passado novelesco do diretor), mas sua maior fraqueza é outra: para um suspense de assassinatos, o assassino, simplesmente, não dá medo. Ele é, sim, apresentado como um louco de sangue frio, que mata sem hesitar (o que, provavelmente, é culpado pela classificação de 12 anos), mas, quando finalmente podemos vê-lo em seu “habitat” ou conhecemos seu passado, as visões são, apenas, bizarras – com direito a grunhidos, contorções e fantasias que caberiam melhor a um filme de público-alvo bem abaixo desses 12 anos.

“O Escaravelho do Diabo” não é uma adaptação ruim, mas deve funcionar para uma parcela pequena do público. Algumas cenas são fortes demais para crianças menores, ao mesmo tempo em que o filme não é desafiador o suficiente para as mais velhas. Para os pais, não será nenhuma tortura (nós sabemos o que vocês passam…), mas também não será especialmente estimulante. Infelizmente, um dos filmes mais esperados do ano deverá, simplesmente, passar batido.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

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