Crítica: Caça-Fantasmas (2016)

Depois de meses de espera, chegou a hora de falar de “Caça-Fantasmas”. Não o de 1984, mas o reboot que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 14 de julho, com quatro mulheres no lugar dos nerds mais queridos do cinema e um bonitão no lugar da secretária.

Filmes como este são mais do que entretenimento: são manifestos. Eles vêm com uma bagagem pesada e enchem o público de expectativas (e preconceitos) antes mesmo de estrearem. Eu mesma tinha meus receios: não seria a troca de gêneros apenas mais uma forma de afirmar o abismo entre os sexos? Ou, pior, não seria um jeito de aproveitar a discussão feminista para ganhar uns milhões a mais?

É claro que não. Para começar, quem assina a direção é Paul Feig (“A Espiã Que Sabia de Menos”, “As Bem-Armadas”, “Missão Madrinha de Casamento”) e o roteiro é dele, ao lado de Katie Dippold (“Parks and Recreation”). Ambos têm experiência com comédias lideradas por mulheres e enxergaram em “Caça-Fantasmas” uma oportunidade para mostrar a um público de massa que elas podem, sim, ser tão engraçadas quanto os homens.

E como podem! As quatro protagonistas do reboot – Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones – formam um grupo infinitamente carismático, cada uma com sua personalidade e suas especialidades, e vão fazer você rir como há muito tempo não fazia. Aliás, eu ri alto e passei vergonha no cinema.

Além de cômicas, todas as personagens são bem construídas e evoluem ao longo do filme: Abby (McCarthy) e Erin (Wiig) reatam uma amizade que estava suspensa; Holtz (McKinnon), talvez a grande revelação do filme, se apega às novas companheiras como uma família; e Patty (Jones), ao contrário do que os trailers podiam sugerir, não é apenas a “personagem negra com habilidades sociais”: ela tem um conhecimento de História que se revela essencial e, junto com as Caça-Fantasmas, encontra a valorização que procurava.

Vocês podem achar isso um pouco injusto, mas um dos grandes trunfos do filme é o personagem Kevin, vivido por Chris Hemsworth. Sim, um homem. E isso não é problema nenhum, porque homens e mulheres podem ser engraçados juntos – e esse personagem é uma das melhores críticas à Hollywood machista que você vai ver na vida.

Por quê? Bem, Kevin é um secretário burro como uma porta, mas acaba sendo contratado só porque é bonito (e porque tem um bom coração). Ele é a paródia perfeita das personagens gostosas, mas inúteis, que só são inseridas no roteiro para serem admiradas ou servirem aos interesses dos protagonistas masculinos. Aqui, porém, ele tem uma vida própria e acaba evoluindo tanto quanto suas colegas, tornando-se um personagem interessante e querido. Mais um ponto para Feig e Dippold.

O que torna a mensagem do filme mais impactante e transformadora é o fato de que o gênero das personagens não faz nenhuma diferença na história, nem determina o sucesso ou o fracasso das Caça-Fantasmas. Na verdade, as únicas pessoas que mencionam o fato de elas serem mulheres são os “haters” da internet, em comentários lidos por elas numa alusão às críticas reais recebidas pelo filme, e o vilão fanboy, que fala num breve momento que elas “lutam como garotas”. Não que a misoginia seja sua principal característica – isso não é necessário. Ele é apenas mais um lunático que quer dominar o mundo e elas, as heroínas nerds que querem salvá-lo. Exatamente como no original.

O que é diferente dos primeiros filmes são os combates com os fantasmas. Aqui, eles são muito mais numerosos e há uma sequência de ação bastante divertida antes do confronto final com o vilão (destaque para os chicotes de Holtz e as luvas de Abby). O grand finale, porém, acaba sendo um pouco decepcionante comparado ao que vinha sendo mostrado até ali, mesmo que seja uma referência clara ao longa de 84, com seus clichês propositalmente cafonas. Felizmente, a batalha é curta e não há tempo para o melodrama: logo, estamos de volta às piadas terríveis de Kevin e chegamos aos créditos finais. Mas não levante ainda… Há um presentinho aguardando os fãs das antigas no final.

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