Por amor às palavras

Faz tempo que não escrevo. Escrevo todos os dias, teço notícias, listas, análises, escrevo títulos, linhas finas, legendas, roteiros e sinopses, posts e anotações, críticas e comparações, mas há muito tempo que não escrevo nada. Um dia destes, entendi por quê.

Um pessimismo geral paira sobre o meio desde que memes, buzzfeeds e snapshats tomaram conta do mercado. Na verdade, talvez o pânico tenha começado bem antes, quando o Twitter determinou que 140 caracteres eram o suficiente para qualquer mensagem, ou quando qualquer texto com mais de dois parágrafos ganhou o status de “textão”. Inevitavelmente, vieram os passaralhos, varrendo de salto as perplexas redações – para que redatores, afinal, se escrever está tão fora de moda?livrosb

Para mim, pessoalmente, a coisa piorou quando vi uma pesquisa mostrando os hábitos de leitura do povo brasileiro. Era uma média de dois livros por ano e metade da população se declarando não-leitora. E isso contando a Bíblia. E é melhor nem falar na posição que “revistas, jornais e notícias” ocupava na lista de prioridades. De-pres-são.

Bem, eu vinha lidando com essa informação desde então, tornando meus textos um pouco mais comerciais (quebrando o ritmo com imagens e subtítulos, ou substituindo textos corridos por listas compactas), aprendendo a trabalhar com vídeo (mas eles também tinham que ser curtinhos) e pensando seriamente em desistir de tudo e abrir um café. Isso talvez ainda aconteça.

Então veio o estalo. É curioso como as coisas acontecem e foi justamente um vídeo pessimista, com o depoimento de um colega de profissão igualmente desmotivado, que me fez entender. Isso e um comentário sobre um político qualquer.

Pense bem: se você ama ler e está triste porque o mundo está ficando menos literário, você com certeza não está sozinho nessa. E, se você está disposto a ler um “textão” ou assistir a um vídeo de 46 minutos (como esse, que me deu o tal estalo), outras pessoas também estarão. Não se sinta menos parte do mundo porque você gosta de escrever as palavras inteiras até no WhatsApp. Não se sinta errado porque você quer usar mais do que uma página para expressar suas ideias, e quer escrevê-las com a sua linguagem, e não com a que faz mais sucesso. É preciso entender que, se você não fizer a sua literatura, ninguém mais vai fazer.

E sabe o que mais? Hatters gonna hate.

A gramática está errada, mas a expressão é perfeita: não importa o que você faça, sempre haverá alguém para achar ruim. E para levar para o lado pessoal e dizer que você não vale nada, porque fez algo com o qual ele não concordava. Mas, quer saber? Se sempre estaremos errados, por que diabos vamos continuar tentando agradar a todo o mundo?

Eu vou é fazer minha literatura para quem quiser ler.

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