Girls’ Night Out

Às vezes me esqueço de como é ir ao cinema sem estar trabalhando. Sem ter que prestar atenção a cada elemento do filme ou refletir sobre suas mensagens e apenas reagir a ele – apenas rir, despreocupada, de todos os seus absurdos e das pequenas identificações que ele provoca, sabendo que a pessoa ao lado não vai se incomodar com isso.

Bem, algumas pessoas podem ter se incomodado. O caso é que fomos ao cinema num grupo de dez mulheres, todas por volta dos seus 30 anos, e ocupamos duas fileiras do fundão como um bando de adolescentes. Isso no meio da semana, o que foi mais delicioso. A sessão não estava cheia, mas tinha lá o seu público, e posso dizer com segurança que as risadas mais altas vieram do nosso canto. Será que o filme era tão hilário? Talvez… Mas acho que, simplesmente, estávamos dispostas a nos divertir.

O filme escolhido foi “Perfeita é a Mãe”, de Jon Lucas e Scott Moore (roteiristas da trilogia “Se Beber, Não Case”). Ele estreou na semana passada, mas eu ainda não assistira e admito que tinha os dois pés atrás. Primeiro, porque o cartaz exposto nos cinemas exibia o trio de protagonistas mostrando o dedo do meio, como se isso fosse a coisa mais revolucionária do mundo (aquela coisa de “vamos chocar sendo mal educados”). O título em português também não ajudava. Segundo, porque me irritou o fato de dois homens escreverem e dirigirem um filme sobre o universo feminino. Mas, vá lá, para uma girls’ night out estava ótimo – se fosse ruim, era só desabafar com a mulherada depois.

O filme conta a história de uma mãe acelerada (Mila Kunis), daquelas que toma conta dos filhos sozinha, trabalha o dia todo (numa empresa onde ela é a pessoa mais velha, mesmo tendo 32 anos) e ainda precisa ouvir desaforos do marido “meninão”. Um dia, ela decide “se demitir”. Não que seja possível se demitir do cargo de mãe, mas ela resolve deixar de agradar aos outros e, para variar, fazer as coisas do seu jeito. E leva outras duas mães com ela (Kristen Bell e Kathryn Hahn).

Nesse período “sabático”, ela para de fazer comida (e a lição de casa) para os filhos, confronta a presidente do comitê de pais e filhos da escola, fala algumas verdades para seu chefe hipster e expulsa o marido de casa duas vezes (para alívio do público, que já esperava uma reconciliação forçada só para seguir a cartilha de Hollywood). E se aproxima do pai mais bonitão da escola (Jay Hernandez, o Diablo de “Esquadrão Suicida” que não se parece nada com o Diablo do “Esquadrão Suicida”), só para colocar a cereja no bolo.

O fato é que não poderíamos ter escolhido um filme melhor. Não por ser uma obra-prima do cinema contemporâneo, mas porque este filme foi feito para ser visto assim: entre mulheres. Veja com sua mãe, sua irmã, sua melhor amiga ou um grupo grande, como aquele, mas poupe seu companheiro dessa humilhação – porque, sim, é um pouco humilhante, já que a grande maioria dos personagens masculinos são o exemplo extremo do que “não ser”. E, digamos, há algumas piadas internas que não gostaríamos de compartilhar.

É claro que vale o recado para aqueles que se identificarem com os babacas, mas esse não é, realmente, o objetivo. Essa é uma conversa sobre a maternidade e todas as obrigações malucas que vêm com ela. É preciso alimentar seu filho com coisas saudáveis. Fazer você mesmo a comida dele. Estudar com ele para que seja o primeiro da turma. E garantir que pratique um esporte. E que estude diversas línguas. E que brinque, sabe-se lá quando – de preferência com você.

É preciso participar de atividades com outras mães, e opinar sobre tudo o que acontece na escola. Estar presente em todos os momentos do seu filho, do seu marido, do seu cachorro, da sua empresa. Da sua vida? Não tanto. Trabalhar, mas não muito para não abandonar a família. Se seu marido a trai, talvez a culpa seja sua. Se sua filha se atrasa para o treino, a culpa é sua. Ah, e faça tudo isso de salto alto, com um sorriso no rosto.

Cansou só de ler, né? Infelizmente, as risadas nervosas na sala de cinema comprovam que isso não está tão longe da realidade. É claro que, hoje, muitas mulheres já podem dividir essa loucura com seus parceiros – mas a cobrança existe e tenha certeza de que as outras mães estão julgando cada um dos seus movimentos.

E sabe por quê? Porque ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Sem ofensas.

E é aí que, talvez, um filme como esse possa ajudar. O bacana não é ver as protagonistas chutando o balde, tocando o terror no supermercado ou aparecendo de ressaca na frente dos filhos – isso é engraçado, mas não acrescenta nada. O interessante é como, depois disso, elas voltam às suas vidas com uma perspectiva diferente: ainda preocupadas com tudo, ainda cuidadosas, ainda responsáveis, mas menos responsabilizadas pela harmonia do universo. Poder errar, essa é a lição.

E poder rir dos seus erros ao lado de outras péssimas mães.

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