Animais Noturnos

Demorei semanas para escrever sobre “Animais Noturnos”. Sabia que o filme – o segundo de Tom Ford, estilista e agora diretor – tinha provocado certos sentimentos, tinha enchido os olhos e apunhalado o coração com suas histórias trágicas e atuações intensas. Mas não conseguia definir qual era, realmente, a mensagem, até algumas noites atrás, quando acordei no meio do sono com a resposta: “Animais Noturnos” é um filme sobre representações. Seu objeto não é o amor, nem a vingança: é a arte.

animais

O longa, inspirado no romance “Tony e Susan”, de Austin Wright, conta a história de Susan (Amy Adams), uma mulher bem-sucedida e elegante, dona de uma galeria de arte e um casamento falido. Um dia, ela recebe de seu ex-marido (um caso quase secreto, da juventude) um manuscrito de seu novo livro, dedicado a ela. O título é “Animais Noturnos”, apelido que ele lhe dera por conta de sua insônia, e o conteúdo é uma violenta e emocionante tragédia sobre uma família que, após ser perseguida numa estrada deserta, é separada e dilacerada.

O filme, então, acompanha essa ficção dentro da ficção, enquanto Susan devora a obra de Edward (Jake Gyllenhaal), resgata memórias de seu passado juntos e questiona o rumo que levou sua vida. Na prática – no presente vivido por Susan – muito pouco acontece. Ela lê, é tocada por aquilo, passa por uma transformação interna, mas sua rotina continua a mesma. Por dentro, seus sentimentos são um furacão, mas, por fora, sua expressão é limitada a um gesto ou uma mensagem.

Nesse contraste radical, a arte parece servir para conferir um significado brutal às ações simples e até banais com as quais o casal se comunica na vida real. Talvez uma ligação não respondida ou um olhar angustiado possam ter, para uma pessoa apaixonada, efeitos tão devastadores quanto os crimes hediondos descritos no papel. E talvez uma boa vingança não precise, necessariamente, ser feita com sangue.

“Animais Noturnos”, além de forte no conteúdo, também ganha pontos pelo casting: ao lado de Adams e Gyllenhaal, estão nomes como Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson e Isla Fisher (que, não por acaso, se parece muito com Adams). A fotografia também é destaque, empregando tons quentes de faroeste nas cenas do livro e cores mais vibrantes e primárias na realidade de Susan (um universo de moda que até faz lembrar “Demônio de Neon”, com direito a uma participação curta de Jena Malone).

NOCTURNAL ANIMALS

A sequência de abertura ainda é um mistério – um ensaio com mulheres obesas e nuas interpretando fantasias sexuais, no meio das quais surge Susan, magra e impecavelmente vestida. Seria essa mais uma crítica à ditadura da beleza exterior? Seria apenas uma piscadela de Ford para o esquelético mundo da moda? Seriam aquelas mulheres reais e Susan, uma farsa?

Talvez a arte não se contente com uma única explicação.

2 comentários em “Animais Noturnos

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