Capitão Fantástico

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Não importa o quanto a humanidade evolua, a ficção sempre acaba voltando para o tema da vida selvagem. A ideia de que uma existência longe da civilização seja possível, uma existência conectada à natureza e livre da culpa pelo consumismo predatório, é tentadora, mas quase sempre encarada como a excentricidade de um indivíduo ou uma necessidade momentânea (como o especial de “Gilmore Girls” bem notou).

De “Na Natureza Selvagem” a “Livre”, o que se vê são adultos cuja “aventura” não tem consequências reais para a sociedade, nem para outras pessoas além de seu próprio umbigo. Mas… E se quem decidisse viver na floresta fosse um casal com seis filhos – longe dos avós, dos tios, de escolas e amigos? E se esse projeto de vida representasse mais do que uma “desistência” ou um “desafio”, mas questionasse os próprios pilares sobre os quais a sociedade contemporânea é tão fragilmente sustentada?

É a percepção dessa fragilidade que torna “Capitão Fantástico” uma obra tão perturbadora. Quase sem perceber, você se verá fazendo perguntas como “Por que escondemos certos conceitos das crianças?” ou “Até onde a criação que se dá aos filhos é uma escolha dos pais, das crianças ou da sociedade?”, ou ainda “É possível se manter fiel aos seus ideais sem ferir outras pessoas?”. Nenhuma dessas perguntas, vale ressaltar, terá uma resposta satisfatória.

À primeira vista, é difícil acreditar que o filme ofereça algo mais do que a meiguice ingênua de um romance indie, com seus protagonistas cabeludos cobertos em estampas retrô sob uma trilha sonora folk… Mas espere até ver a primeira cena. Então, você vai entender que este não é um filme leve, nem tão otimista quanto parece. A silenciosa cena final confirma isso.

Viggo Mortensen é o pilar do filme e da família. Seu personagem, Ben, é um homem cético e extremamente culto que organizou a rotina da família em torno de treinos de sobrevivência (pense em crianças fazendo flexões, escalando montanhas e duelando com gravetos durante horas a fio), leituras de nível pós-doutorando (de física quântica à Declaração dos Direitos dos Cidadãos) e momentos calorosos de música e dança, quase como rituais. Eles parecem felizes, fechados em sua bolha, até que um evento trágico os obriga a encarar a “realidade”.

Observar esses personagens é ao mesmo tempo um mergulho num universo muito distante e um reflexo crítico de nós mesmos. Aquelas crianças são o sonho de todo pai, mas será que estão tendo a chance de ser crianças? Aqueles jovens são fortes, inteligentes e preparados para o fim do mundo, mas quando terão a chance de usar tudo isso? Por outro lado, será que a forma como nós (civilizados, clichês, representados na patética família da irmã de Ben) tratamos nossos filhos, omitindo verdades e subestimando sua capacidade física e intelectual, é melhor em algum sentido?

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Há uma passagem em “Capitão Fantástico” que resume quase literalmente o sentimento do público: enquanto lê “Lolita”, de Vladimir Nabokov, uma das filhas de Ben é questionada sobre suas impressões. Acanhada, ela diz que simpatiza com o protagonista, apesar de saber que ele está errado. Que entende, racionalmente, que ele é um pedófilo, mas que também consegue sentir seu amor sincero. E é exatamente isso: Ben, segundo os padrões da sociedade atual, é um pai abusivo.

A ideia parece absurda, mas não é: ele priva seus filhos de contato social e os expõe a riscos desnecessários, como instrumentos de seu manifesto anticapitalista. Mas ele o faz porque acredita nisso… Porque, quase como uma criança que se deslumbra com uma obra de fantasia ou um adolescente que se rebela ao ler seu primeiro Thoreau, ele realmente sente que sua família é livre, e que pode simplesmente não concordar com as regras e quebrá-las sem sofrer consequências. A diferença é que seu ídolo é Noam Chomsky – um filósofo e linguista que escreveu mais de 100 títulos e é professor no MIT.

O grande mérito deste filme não é sugerir que seus espectadores se isolem e escolham a vida que seus protagonistas escolheram. É, pelo contrário, mostrar que nem um lado nem o outro estão livres de ilusões, e que ninguém é capaz de dizer, realmente, como se deve viver . A história – original, escrita e dirigida por Matt Ross – ainda faz pensar se o que guia nossas ações são convenções sociais, com as quais nem mesmo sabemos se concordamos, ou convicções reais e pessoais. No fim, o que cada um de nós pode fazer é apenas escolher o que acreditamos ser melhor para nós mesmos e tentar, senão compreender, pelo menos respeitar as escolhas de quem está ao nosso lado.

“Capitão Fantástico” estreia no dia 22 de dezembro nos cinemas.

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