Moonlight – Sob a Luz do Luar

Nesta temporada de premiações, dois nomes vêm sendo repetidos à exaustão e devem brigar de frente pelo Oscar 2017 (isso, é claro, se nenhuma campanha mais generosa interferir). Um, obviamente, é “La La Land – Cantando Estações”, o apaixonado e megalomaníaco projeto de Damien Chazelle sobre Hollywood, jazz e seus românticos incuráveis. O outro, bem mais discreto e ainda longe de estrear por aqui (o lançamento está marcado para 23 de fevereiro, às vésperas da premiação), é “Moonlight – Sob a Luz do Luar”.

Seria injusto tentar comparar os dois filmes, por mais que seja exatamente isso que vá acontecer mais cedo ou mais tarde. De um lado, um romance metafórico sobre o contexto, a arte, a magia, sem foco nos personagens, mas sim no universo em que vivem. Do outro, um drama intimista e psicológico sobre um indivíduo, seu mundo interior, sua realidade em conflito com esse universo. São obras opostas e igualmente sensíveis.

“Moonlight” é baseado numa peça que nunca foi produzida chamada “In moonlight black boys look blue”, de Tarell Alvin McCraney, e conta a história de um garoto negro crescendo numa comunidade pobre em Miami. Esse recorte poderia ser sinônimo de uma abordagem agressiva, crua e pessimista, mas, surpreendentemente, o longa de Barry Jenkins escolhe o caminho oposto: delicadeza, angústia e uma ponta de otimismo.

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O protagonista é Chiron, interpretado por três atores diferentes à medida que cresce: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes. Ele não é apenas negro e pobre, mas também gay – e sofre as consequências disso antes mesmo de compreender os próprios sentimentos. Chiron também lida com a mãe (Naomie Harris), que é viciada em drogas e o despreza, desenvolvendo uma relação de interdependência tóxica com o filho.

Um dia, enquanto foge dos colegas da escola, Chiron encontra Juan (Mahershala Ali, nome difícil que você terá que decorar, pois está prestes a explodir), um traficante que o abriga em momentos de crise, junto com a esposa (Janelle Monáe), e lhe ensina lições importantes para a vida, sem jamais deixar de devolvê-lo aos braços da mãe. A relação entre os três é bela e sincera, mesmo tropeçando em certos dilemas insolúveis.

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“Moonlight” é diferente em muitos sentidos. Sua forma é ambiciosa – cada período na vida de Chiron representa um início de um longo processo: o encontro da figura paterna; a descoberta da sexualidade (e da punição que vem com ela); a aceitação. Como em três filmes separados, acompanhamos a evolução de um grupo de personagens caminhando quase inevitavelmente para preencher aqueles clichês que esperávamos no início do filme: papéis pré-definidos, previsíveis, determinados – o gângster, o trabalhador suado, a mulher silenciada.

Esses papéis, porém, não os definem realmente – são apenas fantasias que eles assumem diante do mundo como um escudo. Sob o uniforme, logo se vê, estão pessoas de carne, osso e coração… Transparentes sob a luz do luar.

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