Jackie (Pablo Larraín, 2016)


É interessante como nossas certezas são muitas vezes construídas sobre as narrativas dos outros. Quase não percebemos, mas estamos o tempo todo formando opiniões com base no que lemos ou ouvimos, sem poder distinguir entre o que é realidade e o que são ficções, construídas minuciosamente por quem teve a sorte de poder contar sua versão da história.

Foi essa ideia que me fisgou enquanto assistia a “Jackie” – um filme de Pablo Larraín que eu jurava ser apenas uma biografia romantizada da famosa primeira-dama do governo Kennedy. Obviamente, não era. “Jackie”, aliás, nem narra propriamente a história de Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), mas, sim, a história de seu marido tal qual narrada por ela. Mais especificamente, é a história da morte de seu marido tal qual narrada por ela.

Perdoem o excesso de “histórias”, mas o filme é justamente sobre isso: sobre a construção de narrativas em torno da vida real. Duas narrativas, para ser mais exata. A primeira é a que Jackie entrega a um jornalista (Billy Crudup), dias após o enterro de John F. Kennedy, sobre seus sentimentos diante do choque de ter seu marido assassinado ao seu lado e do confronto com os homens que queriam continuar seu jogo o mais rápido possível dentro da Casa Branca. A segunda é a que ela entrega ao público, tecendo um mito em torno do presidente por meio de um gigantesco espetáculo fúnebre, um programa patético de TV e uma anedota envolvendo um disco da peça Camelot.

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O interessante do longa de Larraín (“No”, “O Clube”) não é o que Jackie conta, mas sim o que Portman revela entre um sotaque inocente, um maço de cigarros e a expressão de quem sabe exatamente o que está fazendo. Em certo momento, ela informa ao entrevistador que ele só publicará o que ela autorizar, e chega a pegar seu caderno nas mãos para rabiscar as anotações – mas nem por isso deixa de lhe contar toda a verdade. Ela o manipula com o sorriso confiante de quem já fez isso diversas vezes durante o curto mandato de seu sobrenome.

Quem lê isso pode pensar que o filme faz um desserviço à personagem, retratando-a como uma vilã, mas não é tão simples. Pela primeira vez, Jacqueline Kennedy se revela uma personagem completa, complexa e com um papel relevante na história americana, mesmo que desempenhado nos bastidores. Se o presidente tomou as decisões oficiais que moldaram o país, ela moldou sua imagem para que essas decisões fossem interpretadas da forma mais conveniente. A Casa Branca foi reformada não por capricho, mas para passar uma mensagem. O caixão foi carregado pelas ruas com todas as pompas sob o risco de novos atentados não por vaidade, mas para criar uma lenda. Para contar uma história que não seria esquecida tão facilmente… Ou, pelo menos, é essa a história que Larraín escolheu contar.

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“Jackie” estreia no Brasil no dia 2 de fevereiro.

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