Toni Erdmann (Maren Ade, 2016)

Você pode até não ter ouvido falar de “Toni Erdmann” ainda, mas, no mundinho paralelo do cinema e da crítica, este filme simplesmente não saiu de pauta desde que estreou em Cannes, em maio de 2016 – tamanha a impressão que deixou em cada um que se aventurou a assisti-lo. Agora, finalmente chegou a vez de o Brasil conferir este que pode ser o favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, se “O Apartamento” não levar a estatueta como protesto anti-Trump.

“Toni Erdmann” é um longa alemão dirigido por Maren Ade (uma mulher, caso o nome não ajude) que corre por duas horas e quarenta minutos, mas tem a leveza de uma comédia de uma hora e meia. O filme conta a história de uma mulher (Sandra Hüller), que trabalha como consultora na área de petróleo e luta para ser reconhecida; e seu pai (Peter Simonischek), um professor de música cara-de-pau que passa os dias fazendo piadas ruins e vestindo uma ridícula dentadura falsa. Os dois, obviamente, não se entendem muito bem.

Pelo título, é fácil presumir que “Toni Erdmann” seja o nome do pai, mas não é. E É. Quando Winfried (este, sim, é seu nome) faz uma visita-surpresa à filha Ines em Bucareste, abordando-a no prédio onde ela trabalha e depois se hospedando sem convite em seu apartamento, ela o suporta por algum tempo, mas logo o obriga a ir embora. Quando ele volta, novamente sem aviso e sem limites, ele já não é mais Winfried, mas sim Toni: um homem de peruca e dentadura que se diz “coach” do CEO da empresa dela.

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O cenário realista desenhado por Ade, que também assina o roteiro, só torna mais surreais as situações em que Ines e Toni se envolvem, especialmente depois que ela abraça a fantasia do pai e começa a envolvê-lo, de fato, em seu ambiente de trabalho. Aos poucos, mesmo incomodada pela quebra de privacidade, ela vai percebendo a espiral corrosiva em que mergulhara: humilhada diariamente por clientes e colegas, ela se vinga transferindo a humilhação para a assistente e o pai, ciente de que a promoção que lhe fora prometida jamais chegará. A presença daquele louco ao seu lado, portanto, não é nada comparada à loucura de toda aquela vida falsa.

Falo de Ines mais do que de Toni porque esta parece ser a trajetória dela, desde a tomada de consciência até a tomada de atitude, tanto em relação ao pai quanto ao trabalho. Não que o filme coloque Winfried/Toni como uma figura boa e injustiçada, mas justamente o contrário: o espectador sente na pele a vergonha e a raiva de Ines, enquanto testemunha o prazer sarcástico do pai em enfrentá-la. No fim, é impossível – e inútil – escolher um lado.

“Toni Erdmann” estreia no dia 9 de fevereiro nos cinemas.

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