Paterson (Jim Jarmusch, 2016)

Poetas vêm em todas as formas e cores. Podem ser estudantes cheios de ilusões, professores cheios de esperança, escritores idealistas, músicos inconformados ou, quem sabe, até motoristas de ônibus sem grandes pretensões. Poesia é, afinal, um exercício de olhar, uma perspectiva, uma linguagem íntima e indecifrável… Não necessariamente um grande manifesto.

E é exatamente isso que define o novo filme do diretor Jim Jarmusch (“Amantes Eternos”, “Estranhos no Paraíso”): “Paterson” é um poema construído pelo olhar. Uma obra que desabrocha de maneira diferente a cada par de olhos – sejam eles de estudantes, professores, escritores, músicos ou motoristas de ônibus.

No centro desse poema está Adam Driver. Um motorista de ônibus que tem o mesmo nome da cidade onde mora – coincidência que lhe confere um certo status de “zé ninguém”. Não é à toa que Laura, sua namorada (interpretada pela iraniana Golshifteh Farahani), domina o lugar: aspirante a artista (em qualquer especialidade disponível), ela pinta cortinas, móveis e roupas de preto e branco com a mesma energia com que assa cupcakes (pretos e brancos) e compra violões na esperança de se tornar uma estrela. Dele, não se vê quase nada – nem mesmo o cachorro foi escolha sua.

Paterson é um anônimo em sua própria casa, mas isso não parece incomodá-lo. Pelo contrário, tudo de que precisa está bem ali, dentro do seu bolso: um caderno de anotações surrado e recheado de poemas ou fragmentos, que carrega para todos os lados. Ele escreve sobre a caixa de fósforos, sobre as conversas no coletivo, sobre seu amor por Laura e o coração que quer saltar do peito. Ele escreve e ninguém lê – porque ele não se importa em ser lido.

O enigma de “Paterson” está no contraste entre a arte como meio e a arte como fim. De um lado, Paterson usa a arte como ferramenta para enxergar o mundo e a si mesmo; do outro, Laura quer transformar a si mesma e ao mundo para fazer arte. Não há certo e errado nessa equação, mas há uma reflexão delicada sobre o que, de fato, define o artista. Em certo momento, por exemplo, Paterson conhece uma garotinha que lhe mostra um poema – ele logo percebe que é muito mais “poético” do que qualquer verso dele, no sentido artesanal da palavra… Mas o quanto se podem, realmente, comparar poemas?

“Paterson” chega aos cinemas nesta quinta, 20 de abril.

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