Corra! (Jordan Peele, 2017)

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Alguns meses atrás, um filme independente de baixíssimo orçamento estreou quase secretamente (na sessão da meia-noite) no festival de Sundance e, em questão de dias, se tornou o filme mais falado do evento. Hoje, não há quem não tenha ouvido falar de “Corra!” (talvez pelo nome original, “Get Out”), nem tenha visto pelo menos uma das imagens de divulgação trazendo as caras e bocas do protagonista aterrorizado. Afinal, de que ele tem tanto medo?

Corra!” é o primeiro longa do diretor, roteirista e produtor americano Jordan Peele (que também escreveu a comédia “Keanu”, bastante elogiada por lá) e é uma espécie de revisão subversiva do clássico “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”, com Sidney Poitier. Como aquele, este também é um filme que critica o preconceito racial e alfineta especialmente as pessoas que não se consideram preconceituosas; mas, diferente do drama de 1967, o filme de Peele é um terror psicológico carregado de sarcasmo.

As piores coisas sempre acontecem em casas de campo

Como no clássico, “Corra!” acompanha a jornada de um jovem negro que vai conhecer os pais da namorada branca. Aqui, ele é Chris (Daniel Kaluuya, um nome que você ainda vai ouvir muito), um fotógrafo que gosta de captar imagens em preto e branco e que tem uma sensibilidade especial para clicar pessoas em situações cotidianas. Não ficamos sabendo qual é a profissão da namorada (Allison Williams), mas eles decidem passar um final de semana na casa dos pais dela – uma propriedade rural isolada.

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De cara, o melhor amigo de Chris (Lil Rel Howery) avisa que essa é uma má ideia. “Você não entra na casa dos pais de uma menina branca”, brinca, e nem precisa dizer mais nada. Qualquer um que tenha vivido neste mundo nos últimos 100 anos consegue entender o porquê. E essa é apenas a primeira das muitas verdades que Peele dirá sem dizer nada, entre olhares incrédulos e risadinhas nervosas.

Medo e paranoia

O horror de Chris começa logo na estrada, quando o casal atropela um cervo e é questionado por um policial. Depois, já na casa, ele verá que os sogros empregam uma equipe de criados negros, mas disfarçam dizendo que são “como família” ou que “os contrataram para ajudá-los”. Ele também descobrirá que a mãe da namorada (Catherine Keener) é uma psiquiatra especialista em hipnose, e que esses criados têm comportamentos perturbadoramente estranhos.

O clima de “Corra!” é todo construído em cima de um medo que duvida de si mesmo, tornando a situação do protagonista um pouco mais perigosa a cada minuto. Será que estou sendo paranoico? Será que eles só estão tentando não parecer racistas? Será tudo isso fruto de uma hipnose mal sucedida? E, enquanto Chris se faz todas essas perguntas (mesmo sem fazê-las), o público implora para que ele corra para bem longe dali.

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É sátira, é terror, é suspense, tudo junto.

Peele, como percebemos logo na brilhante sequência inicial, não é apenas um ativista fazendo uma crítica social por meio do cinema, mas é também um exímio contador de histórias – e, mais especificamente, um habilidoso manipulador do suspense.

Com a ajuda de closes bem fechados, gestos bem calculados e uma trilha sonora que engole o espectador, fazendo arrepiarem todos os pelos, o maestro nos traz para dentro de sua história e não nos deixa sair, nem tampouco piscar, até subirem os créditos. Tudo parece muito real e, ao mesmo tempo, é como com uma versão distorcida do real. Uma versão irônica e satirizada.

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O que faz de “Corra!” uma obra tão acima das outras é o fato de que ela funciona tão bem como crítica social quanto como terror psicológico, com direito a jump scares e tudo o que vem no pacote. Para quem gosta, tem até algumas sequências de ação, mas Peele se esquiva delas elegantemente, mantendo-as o mais curtas possível para que não roubem o brilho do suspense.

Ele também se preocupa em deixar uma alfinetada final para que o público saia refletindo e, principalmente, discutindo – mas nunca com a sensação de que o problema foi resolvido. Pelo contrário, a sensação é esse misto de indignação, horror e tristeza estampado no rosto de Chris na imagem mais famosa da divulgação do filme.

“Corra!” estreia nos cinemas no dia 18 de maio.

 

 

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