Colossal (Nacho Vigalondo, 2017)

Roteiros originais são uma joia cada vez mais rara e preciosa nos cinemas, não são? Pois veja este:

Uma mulher que está desempregada há um ano e passa noites bebendo com semidesconhecidos é despejada pelo namorado e decide voltar à sua cidade-natal. Lá, ela reencontra um antigo colega de escola e começa a reestruturar sua vida quando descobre, pela televisão, que um monstro gigante surgiu sobre Seul.

Calma, tem mais: aos poucos, ela percebe que o monstro, na verdade, é uma materialização inexplicável de si mesma, e que ele só aparece durante um minuto, sempre ao mesmo horário, no mesmo lugar.

É bem verdade que “Colossal” nem precisou de muito para me conquistar. Um filme de kaijus* com Anne Hathaway e uma pegada indie? Tô dentro, claro! Mas, ainda assim, havia muito o que poderia dar errado no longa que chega ao Brasil em meados de junho.

 

Monstro em segundo plano

Primeiro, “Colossal” poderia ser estranho demais. Não nego que seja estranho, mas os dois universos funcionam surpreendentemente bem juntos, talvez porque não tentam se sobrepor. O filme não exige que o espectador mergulhe de cabeça na ficção fantástica, mas apenas joga alguns de seus elementos como um complemento ao drama realista que está se desenvolvendo em primeiro plano. O foco jamais é o monstro em Seul, mas sempre a personagem de Hathaway, Glória, que tem problemas muito maiores para lidar do que o monstro propriamente dito .

Uma heroína complexa e falha

Em segundo lugar, um filme como esse poderia muito bem cair no clichê do feminismo-de-fachada que está tão na moda em Hollywood, com a mocinha sendo colocada como uma heroína invencível ou uma pobre vítima do mundo machista. Este, felizmente, não é um filme de Hollywood (é uma produção canadense e espanhola) e Glória tem toda a complexidade que precisa ter.

Na primeira vez que a vemos, aliás, ela está bêbada e inventando desculpas esfarrapadas para justificar seu atraso para o namorado (Dan Stevens), que também não é nenhum exemplo de perfeição. Logo descobrimos que ela tem um problema real com alcoolismo e que é isso que está destruindo sua vida e seu relacionamento, além de sua carreira. Quando ela volta para casa (numa cidadezinha propositalmente chamada Mainhead – cuja tradução literal significa “cabeça principal”), o primeiro emprego que aparece é justamente num bar.

Alcoolismo em foco

Pode não parecer, mas retratar o alcoolismo nesse limiar delicado entre uma doença e um hábito social “cool” (e ainda fazer isso com bom humor) é o que “Colossal” tem de mais valioso, pois é o que mais se aproxima da vida real. Pessoas de carne e osso nem sempre cometem crimes quando bebem, e dificilmente percebem quando isso se torna uma dependência. Elas aprendem com os filmes que alcoólatras são aqueles beberrões clássicos que batem nas esposas quando chegam em casa, mas não enxergam na cervejinha de todas as noites o mesmo diagnóstico.

Com Glória, é exatamente igual: ela só entende que tem um problema e decide tomar uma atitude quando suas consequências se tornam óbvias – no caso, quando ela acidentalmente mata centenas de inocentes do outro lado do mundo na forma de um monstro gigante.

Relacionamentos tóxicos

Se, a essa altura, você começou a levar “Colossal” um pouco mais a sério, saiba que o filme ainda se arrisca a abordar outro tema espinhoso: o relacionamento abusivo. E, mais uma vez, não é em sua forma mais óbvia. Aqui, ao invés do tradicional brutamontes que agride fisicamente a mulher, o que vemos é alguém comum que se aproxima e, depois de descobrir um ponto fraco da protagonista, passa a chantageá-la, ao mesmo tempo em que lhe oferece ajuda constantemente a ponto de ela questionar o próprio julgamento.

Neste ponto, o filme escorrega alguns degraus. Sem tempo para construir esse personagem tão bem quanto a protagonista, o roteiro pega um atalho e faz com que ele tenha uma mudança de comportamento radical no meio do caminho, o que acaba parecendo inverossímil e conveniente demais. Como consequência, tudo o que acontece após a mudança se torna um pouco mais estereotipado, sacrificando o realismo que víamos até ali. (Nota mental: talvez a escolha do ator tenha influenciado nisso, mas não citarei nomes).

Por outro lado, é um acerto enorme do filme colocar em torno de Glória três homens completamente diferentes, todos falhando com ela em algum momento e de formas diferentes. Isso elimina a ideia de que existem relacionamentos perfeitos e mostra que certos problemas não podem ser resolvidos por um príncipe encantado.

O raio, o clichê

Outro detalhe que, particularmente, não me agradou, foi a opção por justificar a “magia” por meio do recurso mais desgastado da história da ficção: o raio. Ora, se a ideia do monstro funciona tão bem como um simbolismo para a luta interna de Glória, por que se dar ao trabalho de justificar sua existência de forma tão patética?

Mas, afinal, quem foi o louco que uniu Anne Hathaway e monstros gigantes?

O diretor e roteirista de “Colossal” é Nacho Vigalondo – um diretor espanhol relativamente desconhecido que chamou alguma atenção dez anos atrás com um filme chamado “Crimes Temporais”, que também misturava um personagem banal com uma história incrível (envolvendo, no caso, viagens no tempo).

Mas não foi só ele que apostou no filme: “Colossal” é o primeiro projeto de uma start up chamada “Legion M”, cujo modelo de negócios é buscar financiamento para seus filmes junto ao consumidor – ou seja, pessoas comuns como eu e você investiram algum dinheiro neste projeto e, agora, receberão uma parcela dos lucros (ou das dívidas). Revolucionário, não?

“Colossal” estreia nos cinemas brasileiros no dia 15 de junho. Não vai perder, hein?

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