O Rastro (J.C. Feyer, 2017)

Existe um filme de terror brasileiro estreando nos cinemas neste fim de semana. Um filme de terror mesmo – com espíritos, protagonistas enlouquecidos, corredores escuros, hospitais abandonados e até o fatídico e inconfundível filtro azul. Justiça seja feita, até que o resultado ficou bem bonito, mas será que “O Rastro” realmente dá medo?

Posso estar me tornando um pouco insensível aos velhos truques do gênero, mas o fato é que, a mim, o arrepio não veio. Tentei embarcar na história, tentei me sensibilizar pelos personagens, tentei abraçar o clima sombrio, mas sabe o que aconteceu? Não consegui me concentrar. A todo momento, algo me distraía.

Seria o roteiro, que inventava piruetas excêntricas antes mesmo de definir um rumo? Seriam detalhes incômodos de continuidade (como um corredor banhado por luz natural que, de repente, se vê dependente da luz elétrica)? Ou seria o fato de que a história, simplesmente, não me convenceu, com toda a sua pretensão de crítica social?

Seja como for, “O Rastro” bem que tenta, mas basta uma declaração do diretor para entendermos o que deu errado: nunca se teve uma história para contar. O que a equipe tinha era o desejo de fazer um filme de gênero, nos moldes do cinema americano, mas com um contexto brasileiro. O primeiro rascunho, por exemplo, figurava uma “mansão na colina”, nos miolos de Minas Gerais.

Felizmente, essa ideia não vingou e o que vemos nas telas é um hospital semiabandonado que se torna assombrado por uma paciente desaparecida. O cenário é interessante: um médico (Rafael Cardoso) é encarregado de supervisionar a transferência de pacientes de um hospital antigo, que será desativado, para outras unidades. No dia da operação, um novo leito é ocupado por uma menina sem família e, na madrugada, ela desaparece sem deixar vestígios.

O que acontece depois disso é uma definição mais ou menos precisa de “caos”. Ninguém liga muito para o sumiço da menina, mas o médico coloca para si a missão de encontrá-la. Parece haver uma motivação pessoal, já que ele está prestes a se tornar pai e ela o acusara, no dia da transferência, de não “se parecer com um”. O problema é que o filho de verdade não ganha nem um parênteses entre os pensamentos do protagonista e esse fundamento psicológico para o horror vai logo por água abaixo.

Nessa caçada de um homem só, uma personagem (Cláudia Abreu) surge com ares de misteriosa e parece ser a chave para os segredos do hospital. Ela é, contudo, arremessada para fora da trama assim que os primeiros nós começam a desatar, da mesma forma que outros tantos coadjuvantes são apresentados pela metade. Sugerem-se sub-tramas e relações mais complexas que jamais se concretizam e fica a sensação de que poderia haver uma história de verdade em algum lugar por ali.

A ambição dos criadores não se contenta com o excesso de personagens e entram em cena questões políticas e éticas, além das psicológicas e do terror sobrenatural. Fala-se de corrupção, de “esquemas”, de manifestações populares, da falência do sistema de saúde brasileiro. Ora, era preciso enraizar a fantasia num ambiente real e palpável? Talvez, mas o que se mostra ali não é apenas um pano de fundo, e sim um protagonista que briga de frente com tudo o que se vinha propondo até então – inclusive, tirando o foco da menina-fantasma e deixando seu arco incompleto.

“O Rastro” é o longa de estreia de J.C. Feyer e é uma produção da Lupa Filmes – a mesma que lançou “Mato Sem Cachorro” em 2013. O filme estreia no dia 18 de maio nos cinemas e tem classificação 14 anos.

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