Punhos de Sangue (Philippe Falardeau, 2017)

“Você me conhece. Você apenas não sabe disso”, avisa Chuck Wepner (Liev Shreiber, espetacular) antes de começar a contar sua história no drama baseado em fatos reais “Punhos de Sangue”. De fato, você o conhece muito bem – ou, pelo menos, uma versão dele. Wepner foi o lutador peso-pesado que encarou 15 rounds com Muhammad Ali antes de, finalmente, cair e inspirar o personagem Rocky Balboa nos cinemas.

O filme se propõe a recuperar o personagem real, aquele que viu sua vida ganhar três Oscars, mas continuou anônimo. Há uma ironia gritante em se colocar esse personagem questionando a ficcionalização de sua vida através das falas cuidadosamente escritas por um roteirista e expressadas por um ator profissional em uma nova obra para o cinema… Mas suspeito que a ironia seja intencional.

Uma história como essa talvez não funcionasse bem se buscasse uma abordagem tradicional – uma jornada de superação como a do próprio Rocky ou uma decadência moral daquele que foi explorado e deu a volta por cima. Nada disso: “Punhos de Sangue” abre com sarcasmo, fecha com sarcasmo e desenha um protagonista adoravelmente incoerente que, sim, mergulha numa espiral de autodestruição e, sim, eventualmente consegue se reerguer, mas nem por isso se torna o que chamaríamos de “herói”.

Chuck, afinal, é um narcisista arrogante que não sabe lutar tão bem, mas sabe tomar uma pancada. Ele é mulherengo, vive numa relação de amor e ódio com a esposa (bem diferente daquela mostrada no filme do Stallone) e está longe de ser o personagem humilde e cheio de nobreza que inspirou. Ele quer ser famoso, viver no glamour, e poder dizer para todo mundo que é amigo de “Sly”. Mas ele não é, realmente, nada disso.

“Punhos de Sangue” (ou apenas “Chuck”, no título original) não é, portanto, um filme sobre boxe, mas sim sobre um homem que chegou muito perto do sucesso e, deslumbrado, acreditou que o título de “quase campeão” e “quase estrela de cinema” seriam suficientes para defini-lo. Finalmente, ele entendeu que podia ser mais do que isso e se tornou uma nova e mais completa versão de si mesmo. Ou, pelo menos, essa é a versão que estreia nos cinemas na próxima quinta-feira.

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