Frantz (François Ozon, 2016)

Vocês já tiveram o prazer de assistir a um François Ozon? Pois deveriam. Admito que comecei um pouco tarde – o diretor francês está aí desde os anos 90 e só fui conhecê-lo em 2010, com a comédia “Potiche – Esposa Troféu”. De lá para cá, ele lançou “Dentro da Casa” (meu favorito), “Jovem e Bela”, “Uma Nova Amiga”, “Frantz” e, recém-exibido em Cannes, o caliente “L’Amant Double”, que já tem lançamento garantido no Brasil.

Voltemos, então, a “Frantz”, que chega agora para o Festival Varilux de Cinema Francês e estreia em circuito comercial no dia 22 de junho. Menos sedutor que os anteriores, este é um romance de guerra com a lentidão de um filme de gênero e a acidez característica de um Ozon. A combinação é estranha, e deixa uma sensação constante de que há alguma coisa escondida por baixo de todo aquele preto-e-branco. Será?

O filme gira em torno de Frantz (Anton von Lucke), um soldado alemão morto pelos franceses durante a Primeira Guerra Mundial. A primeira, veja bem – aquela que raramente é trabalhada na ficção exceto como um vago pano de fundo. Aqui, é o contrário: é como se o drama dos personagens fosse meramente um sintoma de uma guerra que se ergue como a demonstração máxima da incomunicabilidade humana.

Nada mais adequado, portanto, do que começarmos com um túmulo. Anna (Paula Beer), que teria se tornado esposa de Frantz dentro de alguns meses, carrega flores brancas para o cemitério. Ali, encontra rosas ainda frescas e descobre que foram colocadas por um homem francês. Mas como assim, “um homem francês”?

A reação de Anna e dos pais de Frantz (com quem ela agora vive) diante dessa descoberta é o que guiará os acontecimentos. Ora, se o jovem colocou flores para o falecido, é porque eles se conheceram antes da guerra. Certo? E, se eram tão próximos, então talvez ele possa contar algumas lembranças que ajudem a reduzir a dor pela saudade do soldado… Certo?

A família logo conhece o francês, chamado Adrien (Pierre Niney), e o acolhe como um novo filho, fazendo uma nobre exceção à regra de odiar a todos os seus conterrâneos – regra essa que é praticada com entusiasmo pela vizinhança inteira. Anna, não demora muito, também começa a desenvolver sentimentos pelo estrangeiro, levantando olhares de reprovação e colocando a si mesma e aos ex-sogros em risco.

Repare em como Ozon não constrói seu filme sobre o mistério do homem desconhecido, mas sim sob uma perspectiva crítica. O que ele coloca em foco, mesmo que nas entrelinhas, é o egoísmo das expectativas em relação a Adrien, são os preconceitos e pré-conceitos, o amor e o ódio que são depositados no outro (qualquer outro) antes mesmo que ele possa se expressar.

A tensão, neste filme, não cresce em picos íngremes como num suspense clássico ou um drama histórico convencional, mas se mantém mais ou menos estacionada num nível desconfortável do início ao fim. Talvez o segredo seja o fato de que há uma aura de tranquilidade acinzentada pairando sobre um mundo em ebulição – um mundo que ganha cor quando pequenos flashes de realidade conseguem perfurar a camada grossa de mentiras construídas sobre mentiras, que compõem essa história. Pois seria este, mesmo, um filme sobre Frantz?

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