Mulher-Maravilha (Patty Jenkins, 2017)

A palavra do dia é: finalmente. Demorou anos, décadas, tempo demais, mas finalmente temos nos cinemas uma super-heroína que faz valer o título – com toda a nobreza, a força, o misticismo, uma certa ingenuidade sobre o mundo e, principalmente, o poder de inspirar que vêm com esse tipo de herói. A última vez que vi algo assim foi, provavelmente, no anime “Sailor Moon”, lá para meados dos anos 90, e olhe lá. Pense bem.

Mulher-Maravilha”, evidentemente, não é um filme de arte, nem tampouco é um drama autoral denso e complexo que reinventará o cinema. Este é um típico filme de super-herói, com suas qualidades, defeitos e clichês, mas um excelente exemplar. E com a vantagem de ter no centro uma – essa sim revolucionária – super-heroína com uma bela armadura, uma língua afiada e uma autoconfiança fora do comum.

O filme de Patty Jenkins – enfim, uma diretora – narra a origem da Mulher-Maravilha (Gal Gadot) desde sua infância na ilha paradisíaca de Themyscira. Resumindo para quem nunca leu os quadrinhos, ela é Diana, filha da rainha das amazonas, que são uma comunidade exclusivamente feminina criada por Zeus para trazer paz ao mundo dos homens. Elas são guerreiras, e a mãe de Diana lutou pessoalmente contra Ares, o Deus da Guerra, para salvar a humanidade de sua influência. Agora, elas treinam em seu mundo isolado, à espera de uma nova guerra.

Eventualmente, a Guerra vem ao seu encontro – a Primeira, a “guerra para acabar com todas as guerras” (quanto otimismo!) – na forma de um soldado americano interpretado por Chris Pine. Ele, porém, não vem sozinho, e traz consigo um pequeno exército alemão que o perseguia pelo oceano. As Amazonas, enfim, são chamadas à ação, mas apenas uma se dispõe a se envolver. Adivinhem quem?

Pensando bem, fui injusta no início ao dizer que “Mulher-Maravilha” é um filme típico de super-heróis, porque ele não é. Ele tem, sim, alguns problemas típicos: o inimigo é genérico e mal construído (apesar de ter tanto potencial…), a batalha final é uma decepção, há um excesso de pirotecnia especialmente nos minutos finais. Mas tudo o que vem antes é uma verdadeira lição para seus colegas de gênero, incluindo a postura das amazonas, que mostram que também têm seus interesses e são mais do que meros soldados.

O que “Mulher-Maravilha” faz é construir sua personagem com tempo e paciência. Conhecemos Themyscira, vemos sua rotina, vemos as Amazonas lutando (e, sinceramente? Depois disso não há “Vingadores”, “Guerra Civil” ou mesmo “Liga da Justiça” que se comparem.), vemos o gosto de Diana pela luta desde a infância, combinado ao medo de sua mãe (Connie Nielsen) e ao orgulho de sua tia (Robin Wright). Depois, acompanhamos o primeiro contato da heroína com uma Londres decadente, com uma sociedade onde mulheres não participam das batalhas, nem das decisões, e entendemos como ela vai construindo sua própria motivação para lutar, sua opinião sobre a guerra, os humanos e os deuses.

O melhor do filme, portanto, não é o confronto decisivo do Bem contra o Mal, não é a troca de socos e pontapés que encerra a discussão e restaura o status quo, mas sim a jornada que o transforma. Diana acreditava que a guerra era obra de Ares, que os homens eram bons e que ela, sozinha, poderia salvar o mundo. Seu percurso rumo a esse inimigo idealizado, então, passará por um choque de realidade e fará com que ela amadureça e compreenda melhor seu papel.

Como um filme que pretende mudar o paradigma em relação às mulheres, é importante ressaltar que há mais de uma personagem feminina entre os papéis relevantes. Nem é preciso dizer que Robin Wright rouba a cena nos poucos minutos em que aparece, mas, além dela, também temos Elena Anaya no papel de Maru, uma química que desenvolve gases tóxicos para um general alemão, e Lucy Davis, que empresta seu sorriso amigável à secretária Etta Candy.

Candy é quem traz a história para a realidade, ajudando a visitante amazona a se adaptar à moda londrina e personificando em sua figura baixinha e subordinada o contraste entre o mundo feminista da fantasia e o universo machista da Europa no início do século XX. Ela, porém, não desperdiça a inspiração do contato com uma super-heroína e assume, logo, um protagonismo maior em sua própria carreira. É uma pena que falte tempo, mas seria bom ter visto um pouco mais dessa personagem.

Maru, por sua vez, é o oposto. Elo entre a guerra real e a fantasia dos quadrinhos, ela é uma espécie de “cientista maluca” e é até chamada de “bruxa” por seus conterrâneos. Sua caracterização caricata, porém, não trabalha a seu favor e ela acaba parecendo deslocada ao lado dos outros soldados. Além disso, a personagem não tem uma evolução clara e é relegada a segundo plano enquanto seu chefe, vivido por Danny Huston, concentra todas as atenções.

Esse, afinal, ainda é um mundo masculino – o da guerra – e a presença da própria Diana entre trincheiras é uma visão quase surreal. O que ela faz ali, contudo, muda radicalmente o jogo, dentro e fora da sala de cinema. Entenda: quando a Mulher-Maravilha sobe as escadas e se lança ao front, caminhando a passos seguros entre tiros e explosões, literalmente abrindo o caminho para seus amigos homens avançarem sobre o inimigo, é quase impossível segurar o nó na garganta. Pela primeira vez num filme dessa dimensão, ela é a guerreira mais forte e mais corajosa. Ela luta em parceria com os soldados e tem a confiança deles. O respeito deles.

E a sensação é, simplesmente, desconcertante. Ao sair do cinema, paira no ar uma admiração coletiva por uma mulher, uma guerreira, uma figura em quem homens e mulheres de repente se espelham pelos mesmos motivos. Uma figura tão universal quanto o Batman ou o Superman, mas uma figura feminina. Ao olhar no espelho – cabelos longos, jaqueta vermelha, coturnos pretos – vejo um pouco dela em mim. Olho para o lado e vejo um pouco dela em todas nós… E torço para que pequenos meninos olhem para pequenas meninas da mesma forma que aqueles soldados olharam para a Mulher-Maravilha: como uma irmã, como uma parceira, como uma igual. E que lutem lado a lado contra coisas mais importantes do que suas tolas diferenças biológicas.

“Mulher-Maravilha” estreia nos cinemas no dia 1º de junho.

Confira o trailer:

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