A Múmia (Alex Kurtzman, 2017)

Certa vez, li uma daquelas dicas para quem quer ser escritor que dizia o seguinte: “Se você vai escrever um livro, não conte para ninguém. Apenas escreva”. Talvez alguns estúdios de Hollywood devessem anotar esse conselho.

Não que isso seja fácil de fazer no mercado de entretenimento. Entendo a necessidade de se promover algo tão grandioso quanto um “novo universo cinematográfico”, como é o caso do “Dark Universe” – uma franquia que unirá todos os monstros clássicos da Universal Pictures, começando por “A Múmia”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira.

O problema é que, antes de se pensar uma franquia, é preciso – aliás, é quase obviamente essencial – pensar um único filme de cada vez. Acerte, primeiro, na construção de um personagem, e depois o público irá, naturalmente, querer vê-lo em outros ambientes. Esse foi o erro da DC Comics com “Batman vs Superman” e “Esquadrão Suicida” (corrigido em “Mulher-Maravilha”, mas provavelmente repetido em “Liga da Justiça”), esse é o erro da Universal com sua “Múmia”.

Não que o filme tente apresentar diversos personagens de uma vez – temos apenas a Múmia em si (Sofia Boutella), o mortal que é escolhido por ela para receber a encarnação de Seth (Tom Cruise) e a figura que deverá ligar todas as histórias futuras, Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe) – mais famoso por aqui como “O Médico” de “O Médico e O Monstro”.

O que, então, há de errado com esse lançamento? Bem… O problema é o que não há: não há personagem. Existe uma história ali? Existe e é até interessante: uma antiga princesa egípcia chamada Ahmanet vê seu trono ir por água abaixo quando o rei tem um filho homem, de uma mulher que não é sua mãe. Tomada pelo ódio e pelo medo, ela faz um pacto com o Deus da Morte e conquista o poder, mas acaba sendo presa por seus próprios súditos por 5.000 anos.

Muito bem (voltaremos aos problemas com essa história jajá). Existe uma base para o tal “universo” futuro? Existe também, apesar de superficial: uma organização secreta liderada por Jekyll pesquisa manifestações do Mal ao longo da História e as persegue, com o objetivo de eliminá-las. Nheh… Fraco, mas vamos deixar passar.

E quanto aos personagens? Aí, a coisa complica. Sabe aquela princesa? Não sabemos exatamente por que ela quer o poder. Ela não tem nenhum plano para o Egito ou para o mundo, ela não quer impedir nenhuma atrocidade, não sabemos se sua vida está ameaçada caso ela não assuma o trono, não sabemos o que ela espera dessa parceria com Seth e, sem isso, não conseguimos compreender sua obsessão por completar a maldição, tornando toda a sua jornada meramente um capricho vilânico.

Por conta disso, tudo o que acontece em sequência não faz muito sentido: ela deve escolher um homem mortal para receber todo o poder do Deus da Morte… Mas por quê? Seria essa uma condição de Seth para que ela conquistasse o trono? Se sim, por que ela não conseguiu conquistar nada e foi tão facilmente impedida? Quem era aquele homem que ela escolheu? E no presente, o que esse mortal representa para ela? Por que ela persegue Tom Cruise com tanto afinco, se sozinha com seus poderes ela talvez já conseguisse governar?

Ok, deixemos a Múmia em paz e pensemos no herói, Nick (Cruise). Na primeira vez que o vemos, descobrimos que ele é um ladrão que se passa por oficial do exército para contrabandear relíquias e lucrar com o mercado negro. Um cara com gosto pela aventura e sem grandes princípios morais. O clichê do anti-herói mulherengo e adorável.

Essa definição, porém, se apaga tão rapidamente quanto é desenhada e, no lugar, entra um misto indistinto de generosidade e coração-mole que não trazem nada muito mais específico para a tela. E o que ele faz durante todo o tempo? Ele foge. Ele não procura nada, não deseja nada, não planeja nada – apenas foge de todos aqueles que querem matá-lo e corre de um lado para o outro, preso num cabo-de-guerra entre a mocinha (Annabelle Wallis) e a vilã (Boutella), a primeira das quais ele deve salvar a cada dez metros rasos. Em outras palavras, este é um herói sem objetivos, sem contexto, sem método, cercado por coadjuvantes que precisam dele para alguma coisa. Uma perfeita massa de manobra.

Felizmente, nem só de heróis e vilões vive um blockbuster e há algumas sacadas promissoras de humor e terror, pinceladas pelo roteiro. Nick, por exemplo, ganha um companheiro imaginário que aparece menos do que deveria, mas é um toque inusitado e bem-vindo. Já Ahmanet tem o poder de “sugar” a vida dos mortais e de levantar os mortos, o que abre espaço para um sub-gênero de zumbis dentro do clássico de aventura.

Nada, porém, consegue sobreviver diante da avalanche esmagadora de efeitos visuais que varrem da tela qualquer tentativa de sutileza. Até mesmo a interpretação de Russell Crowe, que prometia uma dualidade cativante, é soterrada pela aparência fake de seu “Mr. Hyde”, esverdeado como um morto-vivo e artificialmente enlouquecido. A potência da Múmia é ridicularizada por uma tempestade de areia com rosto, o horror dos corpos reerguidos é diminuído por seus movimentos digitalizados, o perigo do domínio de Ahmanet é anestesiado com uma destruição genérica e espetacularizada de uma Londres que mal a percebe.

Tudo, enfim, é excessivo – e, consequentemente, não é sentido. Isso é o padrão em Hollywood? Sim, mas, neste caso, talvez não seja o suficiente. Se esta “Múmia” conseguir atrair um público massivo às sessões de fim de semana e divertir famílias numa Sessão da Tarde, isso não significa que ela segurará as expectativas para uma franquia inteira, cujo próximo episódio só chegará dentro de dois anos. O problema de “A Múmia”, portanto, não é “A Múmia”, em si. É aquela promessa que o escritor fez antes de começar a escrever: o “Dark Universe”, pelo qual ela foi responsabilizada antes mesmo de nascer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s