Tudo e Todas as Coisas (Stella Meghie, 2017)

Há alguma coisa errada com “Tudo e todas as coisas”.

Se você já viu algum material de divulgação do filme que estreia no próximo dia 15, ou passou por perto de algum fã do livro, provavelmente já entendeu que se trata de um romance teen com toques leves de fantasia e alguns litros de água-com-açúcar – alguma coisa entre “Crepúsculo” e “A Culpa é das Estrelas”… Inofensivo, certo? Bem, era o que eu pensava.

Pensei nesse perfil de filme e público mais ou menos durante toda a sessão, até que uma virada ali, na reta final, me pegou de surpresa. O que diabos acabou de acontecer?! Se você é daqueles que já leu o livro, então provavelmente sabe do que estou falando.

Fazer uma virada (um plot twist) nos minutos finais não é nenhuma invenção da roda, mas nem tudo cabe nesse curto espaço de tempo. Não dá, por exemplo, para mudar o gênero do filme ou introduzir um gigantesco dilema moral sem que se tenha tempo de desenvolver a ideia… E é exatamente o que acontece neste caso: o twist renderia, sozinho, um filme inteiro ou pelo menos metade deste, mas é tratado como mero desvio de percurso e ignorado como menos relevante do que o romance açucarado da protagonista. Como uma solução fácil para um problema insolúvel.

Pois não é. E não apenas não é menos relevante, como muda toda a perspectiva sobre o filme e sobre a história, trazendo um recorte mais sombrio para o conto-de-fadas adolescente. Mas… Se o cinema resolveu ignorar o que estava escancarado à sua frente, somos obrigados a trabalhar com o que ele, de fato, quis enxergar e mostrar à sua audiência.

Que é a história de Maddy (Amandla Stenberg), uma garota de 18 anos que nunca, em toda a sua juventude, saiu de sua bolha. Vítima de uma doença que reduz drasticamente sua imunidade, ela não pode ter contato com nenhum vírus ou bactéria e, por isso, teve sua casa transformada numa espécie de hospital-bunker esterilizado, com janelas enormes para que ela não se sinta aprisionada. Algo como a residência perfeita de uma ficção científica utópica.

Um dia, Maddy vê um novo vizinho se mudando para a casa ao lado – um menino da sua idade, com pinta de rockeiro-blasé (roupas pretas, cabelos no ombro, skate, o pacote completo), que não consegue parar de olhar para ela. Eles, é claro, não podem se encontrar fisicamente, e é aí que começa a aventura romântica da nossa protagonista. Aquela que você já viu, e já sabe exatamente como começa e termina.

O filme (e o livro, imagino) aproveita algumas possibilidades do mundo moderno para construir o modo de vida de Maddy – o que é, provavelmente, o mais interessante da obra. Com a ajuda da internet, ela compensa sua total ausência de convívio social (que, se fôssemos esperar um mínimo de realismo, faria dela um poço de neuroses) e até faz um curso à distância de arquitetura – para a qual parece ter grande talento. Leitora ávida, ela usa sua imaginação para se colocar dentro das próprias maquetes enquanto tem conversas com pessoas fora de seu mundo (no caso, apenas o vizinho) e escreve micro-sinopses de suas obras favoritas num blog literário.

Esse universo da personagem é o sonho de qualquer garota introvertida e o fato de que a atriz escolhida para o papel é negra, relativamente baixa, de cabelos crespos e curvilínea é um ponto infinitamente positivo, que deve fazer muito bem à autoestima das meninas que, certamente, irão em bando assistir ao lançamento.

“Tudo e Todas as Coisas” não deixa de ser aquele romance doce e idílico que prometeu desde o início – aquele em que se finge que é normal abrir mão de tudo em nome de uma alma gêmea que se conheceu alguns minutos atrás –, mas ele poderia ser algo muito maior. A forma como o filme trata certas questões, como a ideia de que o amor está ligado ao sofrimento, é preocupante e nem um pouco inofensiva, mas, com alguma sorte, isso nem será percebido pelo público médio. No fim das contas, talvez a água-com-açúcar amenize o estrago e dilua o filme dentro do filme, fazendo com que apenas um ou outro espectador mais atento enxergue o grande drama psicológico que poderia ter sido.

“Tudo e Todas as Coisas” é dirigido por Stella Meghie e baseado no livro homônimo de Nicola Yoon.

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