As Irmãs Brontë (Sally Wainwright, 2016)

O Morro dos Ventos Uivantes”, “Jane Eyre”, “Agnes Grey”. Emily Brontë, Charlotte Brontë, Anne Brontë. Pare por um minuto e absorva… Agora, vá ao seu serviço de streaming favorito (eu recomendo o Looke, que tem um ótimo catálogo e você pode alugar avulso) e escolha um filme de 2016 chamado “As Irmãs Brontë”. É sério, você não vai se arrepender.

O filme, como você já deve ter adivinhado, conta a história das três irmãs mais famosas da literatura inglesa e, também, de seu quarto irmão, Branwell. Na verdade, a relação entre os quatro e o contraste entre elas e ele é o que move este romance trágico, literário e carregado de reflexões sobre gênero, família e arte.

A discussão sobre gêneros é a mais forte, e traz uma perspectiva sutilmente mais crítica do que a que você costuma ver em romances históricos. Mas para entender é preciso voltar à cena de abertura:

Quatro irmãos brincam intensamente no salão, nas escadas, por todo o casarão que ainda hoje pode ser visitado em Haworth, West Yorkshire, no Reino Unido. O ano é algo em torno de 1820. Munidos de criatividade e liberdade, os Brontë inventam mundos fantásticos e encarnam personagens aventureiros, desafiando-se a mergulharem cada vez mais fundo no universo da ficção. Eles caçoam uns dos outros, mas são um time: eles contra o mundo. Um dia, serão reis!

Voltamos, então, a essa mesma família alguns anos depois: o time foi rompido. De um lado, três mulheres obrigadas a falarem em cochichos e a assumirem trabalhos que nada têm a ver com sua vocação. Do outro, um homem soterrado pela pressão de sustentar a casa sob os olhos de seu pai, cego por um amor não-correspondido e afundando pouco a pouco no escapismo do álcool, de onde já não consegue mais sair.

Dos quatro, Branwell é o único que tem uma chance real de ser publicado – porém, sua falta de disciplina e motivação tornam isso bastante improvável, apesar de ele ser dono de uma poesia forte e emocional. Charlotte sonha em enviar seus trabalhos a uma editora, junto com o de suas irmãs, mas Emily a adverte que elas apenas seriam humilhadas, já que ninguém nem mesmo tentaria julgar seus trabalhos com seriedade.

De fato, elas chegam à conclusão de que devem assumir pseudônimos e, depois de muito hesitar, enviam seus primeiros manuscritos como Currer, Ellis e Acton Bell. Não demora para que “Jane Eyre” (assinado por  Currer Bell) encontre seu público e se torne um sucesso estrondoso – levantando, inclusive, a suspeita de que a autora seria uma mulher.

Descrevo toda essa trajetória para ressaltar não o fato de que as três irmãs foram obrigadas a se “travestirem” de homens para terem uma chance no mercado, mas, sim, para chamar sua atenção para o fato de que o único irmão não o fez. Na jornada dos Brontë, o que se revela é que a criação distinta para homens e mulheres acabou por influenciar a própria literatura, estabelecendo o conteúdo e a carga de denúncia presente em seus principais romances, além de determinar o estado emocional dos seus autores.

Em outras palavras, o machismo fez tão mal a Branwell quanto às irmãs, e é o que acaba por definir a todos como pessoas e como profissionais. A tensão que se ergue entre ele e elas, por conta disso, é como um muro intransponível e espinhoso, inexistente na infância e imenso na vida adulta.

E é aí que entra o segundo ponto: a família. O modo como o pai dos Brontë deposita todas as suas expectativas e frustrações num único filho, deixando as outras três simultaneamente desacreditadas e livres, mostra uma relação familiar fria, construída sobre obrigações sociais e não sobre uma cumplicidade real. Já a relação entre os irmãos é o oposto: todos sabem que seus papéis estão errados, mas nutre-se um rancor pessoal em decorrência da injustiça do mundo. Emily é a mais próxima de Branwell e é a que mais se choca contra ele, mas também é quem o acolhe quando necessário… A cena em que os dois sentam no muro e observam a lua diz tudo. Nada se pode fazer.

Por fim, o filme aborda a arte, integrando aos diálogos e pensamentos versos românticos e assonantes. Entre passeios no campo (longe da casa e da cidade), as irmãs conversam sobre narrativas do cotidiano e histórias reais vão formando a base para clássicos da ficção. A fotografia também busca uma referência na arte e certos enquadramentos e truques de iluminação – em especial no interior da casa – fazem lembrar pinturas da época.

Cometi o erro de assistir a esta pequena pérola na tela enxuta do meu computador… Minha dica é: não faça o mesmo. As imagens merecem a maior tela que você tiver à disposição.

“As Irmãs Brontë” é o primeiro longa de Sally Wainwright como diretora, e ela também assina o roteiro. No elenco, Finn Atkins (Charlotte), Chloe Pirrie (Emily), Charlie Murphy (Anne), Adam Nagaitis (Branwell) e Jonathan Pryce (o pai).

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