Ao Cair da Noite (Trey Edward Shults, 2017)

Imagine um ponto de partida mais ou menos como “The Walking Dead”: um vírus se espalhou pelo mundo, as pessoas se isolam, elas estão com medo. Então, o instinto de sobrevivência se sobrepõe a toda a civilidade e começa a barbárie.

É mais ou menos essa a ideia de “Ao Cair da Noite”, um suspense que não mostra praticamente nada, mas fala de tudo e fala em sussurros, arrepiando cada um dos pelos da sua nuca. A premissa é basicamente a de um filme de zumbis, mas não há um único morto-comedor-de-vivos em cena. Na verdade, mal sabemos o que o tal vírus faz, a não ser deixar suas vítimas debilitadas e cheias de marcas – mas sua mera existência já é suficiente para que as pessoas desistam umas das outras.

Kelvin Harrison Jr. interpreta Travis, nossos olhos e ouvidos através desta história

E é esse o maior medo de Travis (Kelvin Harrison Jr.): ser abandonado. Filho de Sarah (Carmen Ejogo, de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”) e Paul (Joel Edgerton, de “O Presente”), ele começa o filme testemunhando a morte de seu avô. Aliás, o assassinato de seu avô, pelas mãos do próprio pai e com o consentimento da mãe. O idoso, é claro, sofria com o vírus mortal e é consolado com palavras como “você não precisa mais lutar”. Se isso não soar como a coisa mais cruel que alguém poderia dizer a quem está prestes a levar um tiro, não sei o que mais será…

Acompanhamos, então, a rotina desta família. Isolados numa casa de campo, eles lacraram todas as janelas e estipularam uma única saída – fechada por uma porta vermelha, que dá para uma espécie de cozinha coberta por plástico e, então, para o exterior. Assistimos a quase toda a história pelo ponto de vista de Travis, que é o de quem não pratica nenhuma ação, mas apenas observa, sente e teme. Mais ou menos como nós. Vemos também seus pesadelos, que vêm à noite como avisa o título, contrapondo fantasias terríveis a uma realidade ainda pior. Talvez se houvesse mesmo um monstro ou uma invasão de zumbis, as coisas seriam mais fáceis.

Joel Edgerton é Paul, pai de Travis e protetor de sua família a ferro e fogo

Uma noite, alguém entra na casa: é um homem, procurando água para sua esposa e filho. Desconfiado, Paul o tortura antes de acreditar em sua história e, depois, faz um acordo para unir os suprimentos e os convida a morarem com eles. Na verdade, este não é um convite que pode ser recusado e, a partir de então, cresce a tensão sob aquele teto supostamente seguro, agora com seis moradores e um cão. Estarão os forasteiros contaminados? Estarão os próprios donos da casa livres da infecção? E será que tudo isso realmente importa?

O que um filme como esse nos dá – assim como outros suspenses intimistas que andaram surgindo por aí, como “Corra!”, “Rua Cloverfield, 10” e “Boa Noite, Mamãe” – é uma oportunidade de olhar para dentro e refletir sobre o perigo que não vem do outro, mas sim de nossos próprios medos primitivos. Afinal, que sentido há em se desejar tanto um futuro se, para isso, você mesmo tornará o presente inabitável?

“Ao Cair da Noite” é o segundo longa escrito e dirigido por Trey Edward Shults (“Krisha”) e já está em cartaz nos cinemas.

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