Uma Família de Dois (Hugo Gélin, 2016)

Remakes são sempre uma armadilha quando você já viu o original… Mas, às vezes, comparar dois produtos diferentes baseados na mesma história é uma oportunidade única de olhar para duas culturas tão distintas quanto a mexicana e a francesa, por exemplo, e questionar seus próprios conceitos e preconceitos sobre cinema.

Pois foi o México que produziu, em 2013, o filme latino de maior bilheteria na história dos Estados Unidos, quarta maior entre todos os estrangeiros: “Não Aceitamos Devoluções”. Uma comédia familiar sobre um homem (Eugenio Derbez, também diretor e produtor) que cria sozinho uma menina que foi abandonada em seus braços quando bebê e, anos depois, vê sua vida perfeita com ela ser devastada pelo retorno da mãe – uma mãe que ele fez questão de manter idealizada na memória da menina para que ela não soubesse que foi abandonada.

Eugenio Derbez vive um pai de primeira viagem em “Não Aceitamos Devoluções”

Essa história foi contada, é claro, com alguns afetamentos típicos da tradição mexicana – um humor cheio de caras e bocas, exageros nas cores e nas expressões –, mas surpreendeu, na época, a maturidade com que Derbez fez questão de tratar sua história, escolhendo a dose certa de humor e drama até o ponto em que o público sairia devastado dos cinemas. E saiu. Eu saí.

No Brasil, infelizmente, foram pouquíssimas as pessoas que assistiram ao longa mexicano e a história acabou caindo rapidamente no esquecimento. Agora, a trama retorna aos cinemas com uma versão francesa, protagonizada por Omar Sy (“Intocáveis”) e dirigida por Hugo Gélin.

Quando soube do remake, minha reação foi das mais otimistas: “talvez os franceses consigam lapidar aquele humor novelesco e entregar um drama mais realista, ainda mais sensível”! E por que não? Eu tinha certeza de que o derivado seria melhor que o original. Mas não foi.

Na versão francesa, é Omar Sy que assume o papel do mulherengo irresponsável que aprende a ser pai

Uma Família de Dois”, como foi intitulada a versão francesa, é quase o mesmo filme – exceto que não é. O carisma de Sy segura a produção na maior parte do tempo e os eventos são praticamente os idênticos, incluindo a caracterização do quarto da menina (um elemento que eu achei que não seria repetido) e a profissão do pai (dublê, o que na versão mexicana faz mais sentido, já que é mostrado, desde o início, como um homem medroso).

Duas mudanças, contudo, acabam fazendo toda a diferença na nova versão. No original, o protagonista é mexicano e viaja ilegalmente aos Estados Unidos em busca da mãe da criança. A questão da imigração, então, assume um papel importante no roteiro e isso jamais poderia ser replicado com o mesmo impacto. A solução foi fazer o personagem de Sy se mudar da França para a Inglaterra e brincar com os estereótipos locais (pense em ingleses gritando e sendo rudes o tempo todo). Mas a verdade é que essa viagem, acompanhada de uma atrapalhada perda de passaporte, mais parece uma enrolação do que algo realmente essencial para a história.

Clémence Poésy interpreta a mãe,que retorna oito anos depois para conhecer a filha (Gloria Colston)

Outra diferença (talvez a mais relevante) é que, no longa de 2013, pai e filha estão constantemente no hospital e, frequentemente, aparecem falando sobre sua saúde ou tomando suas vitaminas. Isso não acontece na nova versão, que esquece o assunto na primeira metade do filme e o recupera apenas na reta final, deixando os espectadores confusos e se sentindo enganados quando a resposta para essas consultas é apresentada. A sensação é de que o desfecho não se amarra com o resto da história e poderia ser facilmente cortado.

O que quero dizer com isso não é que “Uma Família de Dois” peca por não ser totalmente idêntico a “Não Aceitamos Devoluções”, mas justamente o contrário. Se o filme decidiu trabalhar melhor o papel da mãe, por exemplo, ao invés dos medos do pai, talvez ele devesse ter abraçado essa diferença e escolhido caminhos que fossem reforçar esse ponto de vista. Se a ocupação do protagonista ou sua mudança de país não faziam tanto sentido para esse personagem, então que se colocasse uma nova profissão e um novo contexto, conferindo uma conclusão mais satisfatória à sua jornada.

Uma Família de Dois” é um exemplo do remake ou da adaptação que se esquece de compreender o espírito de uma obra original e se concentra, apenas, em replicar os eventos em outro cenário. O resultado, é claro, fica a desejar. E para quem ainda acha que há algo a se acrescentar à história de Derbez, em dezembro chega aos cinemas uma versão brasileira do filme, com Leandro Hassum no papel principal. Vamos aguardar com o coração aberto.

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