Soundtrack (300ml, 2017)

De vez em quando, um filme diferente chega discreto aos cinemas e pode até passar batido. Mas se por acaso houver uma sala exibindo “Soundtrack” em alguma sessão perto de você, reserve duas horinhas para conferir. É poesia em forma de cinema.

“Soundtrack” conta a história de um fotógrafo chamado Cris, vivido por Selton Mello, que conquista uma concorrida vaga numa estação polar onde cientistas de diferentes cantos do mundo fazem suas pesquisas. Entre eles, está o inglês Mark, interpretado por Ralph Ineson, e o também brasileiro Cao, vivido por Seu Jorge.

O filme explora o contraste entre o artista e os cientistas, entre seus preconceitos e suas visões particulares de mundo, e faz isso com uma atenção especial à forma – afinal, o nome é “Soundtrack”, que significa “trilha sonora”. O som e a imagem têm papéis essenciais na narrativa e trabalham lado a lado com o roteiro para provocar sensações, mais do que contar, simplesmente, uma história.

Numa cena memorável, o personagem de Mello promete ao de Ineson que o fará enxergar uma mesma montanha de três formas diferentes. Então, ele lhe empresta um fone de ouvido e prepara três trilhas diferentes para o mesmo cenário. Para o espectador, porém, o som é cortado. Cabe a cada um imaginar uma música diferente, um contexto diferente, uma memória diferente. O público é convidado a completar o filme, a criar uma experiência junto com seu protagonista.

O projeto artístico de Cris renderia uma tese completa por si só, mas, num primeiro olhar, chama a atenção o fato de ele ressignificar uma das experiências mais banais da vida contemporânea: a “selfie”. Seu objetivo é tirar fotos de si mesmo naquele cenário isolado e apresentá-las ao público juntamente com a música que ele ouvia naquele momento. Dessa forma, a expressão máxima do egocentrismo e da obsessão pela imagem é transformada num estudo sobre a solidão, a introspecção e sobre o poder de invocação da arte.

Ao colocar como objeto a selfie e, indiretamente, o desejo por reconhecimento e aprovação, o filme também faz uma crítica irônica a essa realidade, trazendo personagens que não têm a intenção de ver o resultado de suas obras e que nem mesmo serão reconhecidos em vida por elas – como um pesquisador cujo projeto só estará completo dentro de um século. Mais coerente ainda é o fato de que os diretores do filme se propõem invisíveis, apresentando-se pelo nome não-humano de “300 ml”.

“Soundtrack” não é um filme para todos os públicos ou todos os momentos – é um filme de arte e, como tal, merece uma atenção mais cuidadosa que um final cansado de sexta-feira talvez não poderá oferecer. Deixe para vê-lo numa tarde inspirada, ou ao lado de alguém com quem possa discutir após a sessão. Garanto que vocês sairão com outros conceitos sobre trilha sonora, fotografia e cinema brasileiro.

O filme estreia no dia 6 de julho.

Assista ao FC! No Ar Especial sobre “Soundtrack” com Selton Mello.

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