Carros 3 (Brian Fee, 2017)

Chame de “coração gelado” ou de “mal humorada”, mas o fato é que nunca gostei da franquia “Carros”. O primeiro filme me pareceu uma cópia muito pretensiosa de algum sucesso do Stallone, e do segundo eu desisti depois de alguns minutos. Não entendia, portanto, a necessidade de se lançar um terceiro longa-metragem nos cinemas. Se fosse apenas pelos brinquedos, uma série de TV faria muito bem o serviço, certo?

Pois, necessário ou não, o tal terceiro filme chega aos cinemas já nesta quinta-feira – e, para a minha surpresa, é um longa que, finalmente, tem algo a dizer.

“Carros 3” repete um pouco as ideias do primeiro filme, mas traz personagens mais interessantes e aposta numa sensatez maior para discutir a questão da aposentadoria e da competição, intrínsecos ao tema do esporte. Aqui, Relâmpago McQueen está vivendo o sonho de ser o grande campeão das corridas e se diverte revezando o pódio com dois outros concorrentes, que se tornaram amigos. O jogo vira quando um atleta mais jovem consegue ultrapassá-los e uma nova geração de pilotos começa a despontar.

Vendo os colegas de sua geração abandonando as pistas, McQueen se desestabiliza e sofre um acidente, que o coloca numa posição de pressão entre o retorno triunfante na temporada seguinte ou o fim da linha – um fim estratégico patrocinado por um empresário interessado em vender produtos com seu nome. Ele, então, resolve treinar “como os jovens” para provar que ainda não chegou sua hora, e é como conhece a treinadora Cruz Ramirez.

Ramirez poderia ser apenas mais uma escada para o protagonista, como foi a namorada Sally ou o caminhão Mate desde o primeiro filme, mas ela segue um caminho diferente. Sua trajetória é paralela à de McQueen e ela até ganha sua própria história – ela tem um passado, tem objetivos, tem motivações e tem uma evolução clara e relevante.

Mas não foi só isso que me atraiu para a personagem… Foi a puxada de orelha escondida em algumas de suas falas. Em especial, numa cena: durante um diálogo com McQueen, ela lhe conta que jamais se sentiu “parte” do mundo das corridas e pergunta como, em sua primeira competição, ele fez para vencer o medo de não conseguir. A resposta dele diz absolutamente tudo sobre o personagem e sobre a questão de gênero que está sendo colocada ali: “eu nunca pensei que não conseguiria”.

Em outras palavras, ninguém nunca duvidou dele, nem mesmo ele mesmo, e a surpresa seria se ele fracassasse. Isso já o coloca na pole-position em relação a qualquer concorrente feminina e, mesmo que ele não seja tão bom assim, podemos apostar que chegará na frente.

É claro que este é um filme infantil e o objetivo não é mais do que entreter e vender carrinhos, mas me surpreendeu positivamente ver o tema do feminismo – já tão batido e maltratado – ser abordado assim, de forma simples e didática, sem parecer que a personagem foi colocada em cena para preencher uma cota. Surpreende ainda mais que isso esteja acontecendo numa franquia criada em torno de “carros” – brinquedos masculinos por excelência.

Ramirez à parte, o filme também apresenta alguns personagens novos que devem cativar o público: uma jornalista esportiva (dublada por Fernanda Gentil) analisa os números e as probabilidades a cada corrida; um grupo de amigos do finado Doc Hudson aparece para apoiar McQueen e não podemos esquecer a equipe que se enfrenta “até a morte” numa divertida corrida de demolição, entre pneus, chamas e um lamaçal.

“Carros 3” ainda está longe de ser um “Pixar” no melhor sentido da palavra, mas mostra uma evolução substancial em relação aos filmes anteriores. Desta vez, o que se propõe não é uma ode à velocidade e à adrenalina, mas sim uma reflexão sobre gerações, sobre o sentido de “velho” e sobre a competitividade injusta que existe em qualquer área de trabalho, e que joga uma água gelada sobre aqueles que amam o que fazem. O filme também dá a injeção de frescor que a franquia precisava e prepara o terreno para futuros episódios.

Relâmpago McQueen e Cruz Ramirez chegam aos cinemas no dia 13 de julho.

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